terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Terceira Esquadra e o grande tufão


Um sombrio vendaval, auxiliado por «grandes erros», humilhou uma altiva esquadra em sua hora de triunfo

A Terceira Esquadra e o grande tufão

Hanson W. Baldwin
Redator de assuntos militares do «Times» de Nova York
Condensado de « The New York Times Magazine»


ERA a maior esquadra que já sulcara os mares e vinha de alcançar o seu maior triunfo. Mas a mão de Deus estava estendida sobre ela e um grande vento soprou; a esquadra foi dispersada e devastada sobre o oceano. A inexorável lei das tempestades fora esquecida e a Terceira Esquadra Norte-Americana, sob o comando do Almirante William F. Halsey, sofreu o castigo: mais homens perdidos, mais navios afundados e avariados do que em muitos dos combates da guerra no Pacífico.
Em meados de dezembro de 1944 a batalha do Golfo de Leyte, nas Filipinas, já tinha passado à história; havia apenas poucas semanas que o Império Nipônico recebera um golpe fatal. A invasão da Ilha de Mindoro, ocupada pelos japoneses, começara em 15 de dezembro e a Terceira Esquadra achava-se esgotada por três dias de ataques os mais variados contra a ilha de Luçon. Quando a esquadra se retirou para reabastecer-se, estava à vista o começo do fim. O Almirante Halsey, com seu pavilhão içado a bordo do encouraçado New Jersey, transmitiu aos navios-tanque e à Força Tarefa 38, constituída
por porta-aviões, a posição onde seria feito o reabastecimento—cerca de 500 milhas a leste de Luçon. Mas o mar tornou-se agitado na noite de 16 para 17 de dezembro e o pessoal sentiu o mal-estar provocado pela tempestade que se aproximava.
Domingo, 17 de dezembro: O dia amanheceu sombrio e encoberto, o mar picado, o vento forte porém variável, os navios sacudindo violentamente. A Terceira Esquadra navega através de centenas de milhas de oceano, os mastros e os conveses de voo arfando e caturrando, descrevendo amplos arcos sobre o horizonte. Aqui, em toda a sua majestade, está a esquadra que dominou o orgulho do Japão—duas dezenas de porta-aviões, oito encouraçados, numerosos cruzadores e dezenas de contra-torpedeiros. A Terceira Esquadra entra em contacto com os 24 grandes navios-tanque de esquadra e com a respectiva escolta, e, apesar dos vagalhões violentos, o reabastecimento principia. As exigências do combate, o apoio necessitado pelos soldados que estão lá em Mindoro, não permitem qualquer concessão à natureza.
Os contratorpedeiros—os navios pequenos que dançam em qualquer mar, navios cujos tanques de óleo estão vazios por terem passado dias cruzando a toda velocidade—aproximam-se para ficar a contrabordo dos navios-tanque. O oceano, porém, não o permite. Alguns navios conseguem embarcar uma pequena quantidade de óleo antes que as mangueiras se partam e os navios, jogando, afastem-se violentamente; porém a maioria parte uma mangueira atrás de outra, e enquanto os contramestres amaldiçoam, as ondas se quebram violentamente nos conveses dos navios-tanque e o óleo corre sobre as chapas de aço.
Nas primeiras horas da tarde o reabastecimento é suspenso; o rumo passa a ser noroeste, mudado, posteriormente, para sudoeste, a fim de evitar o centro da tempestade que se aproxima, centro este que, no entanto, não está localizado nitidamente. As leituras dos barômetros caem, os ventos gemem, mas a Terceira Esquadra navega em formatura de cruzeiro.
Segunda-feira, 18 de dezembro: A noite está horrível; nas mesas da praça d'armas dos contratorpedeiros colocaram-se as guardas para impedir que os pratos caiam; o pessoal que foi dormir "está amarrado aos beliches, mas os bruscos movimentos dos navios, consequência do mar agitado, só permitem um sono cheio de sobressaltos. As leituras dos barómetros caem ininterruptamente. As rajadas de chuva, o borrifo e a espuma reduzem a visibilidade; é difícil aos navios conservarem as posições que lhes competem na formatura da esquadra—às vezes isto é quase impossível. Os ventos batem e açoitam «mas as posições estimadas para o centro da tempestade não concordavam umas com as outras» e só pela madrugada é que a Terceira Esquadra compreende que está no caminho do maior e pior de todos os tufões. O rumo da esquadra é mudado para 180 graus—diretamente para o sul— mas é muito tarde: a fúria do tufão está desencadeada sobre os navios.
O quarto de 8 às 12 começa, empregando-se uma velha expressão marinheira, «com a onça solta». A violência do vento é terrível; ele guincha e relincha, ruge e estremece, bate e agarra. Os navios estão oscilando intensamente—castigados pelo vento, jogando rapidamente com inclinações tremendas e com movimentos bruscos e violentos, caturrando e arfando, mergulhando profundamente sob toneladas d'água, levantando-se com esforço, esguichando espuma e sal através das seteiras dos canhões e dos escovéns. As rajadas violentas acompanhadas por aguaceiros, os borrifos que picam como se fossem granizo, e as nuvens baixas, arrastadas pelo vento forte, suprimiram completamente a visibilidade. A Terceira Esquadra está dispersa; poucos são os navios que vêem os outros; somente nas telas dos radares os traços luminosos aparecem para mostrar, em confusão tumultosa, a extensão do poder humano.
Os navios-tanque completamehte carregados, os pesados encouraçados e os porta-aviões maiores jogam e mergulham profunda e violentamente, mas sem perigo, em mares encapelados; para os porta-aviões de escolta, os porta-aviões ligeiros e os contratorpedeiros, entretanto, a luta é de vida ou de morte. Alguns dos |navios da esquadra estão exatamente no caminho pelo qual vai passar o tufão, onde os ventos mais fortes os empurram para o centro da tempestade, e no mínimo um dos grupos de navios da Força Tarefa está exatamente na zona adjacente ao «olho» do tufão, onde o redemoinho do vento e o oceano borbulhante alcançam seu efeito máximo. Um navio atrás de outro perde seguimento e é arrastado para os terríveis cavados formados entre as ondas, não obedecendo mais ao leme.
A bordo do porta-aviões ligeiro Cowpens um avião de caça, amarrado, por três cabos ao convés de voo, solta-se por ocasião de um balanço de 45 graus e se despedaça de encontro ao passadiço, causando um incêndio. A guarnição está a combatê-lo quando uma muralha maciça de água verde rasga, como se fosse um abridor de latas, as portas de aço de bombordo do convés dos hangares. A guarnição combate o incêndio quando o vento e o mar arrancam de sua base de aço a plataforma do canhão de 20 milímetros de vante. A guarnição.também combate o incêndio ao mesmo tempo que as bombas arrebentam os seus cabides no paiol e rolam desordenadamente sobre o convés; ao mesmo tempo que jeeps e tratores, um pequeno guindaste e sete aviões são arrancados de suas peias, varridos do convés de voo e lançados ao mar agitado. Mas é o próprio mar que, por fim, extingue o incêndio, da mesma forma que fora ele que o causara; o avião incendiado solta-se do passadiço e cai no tumulto das ondas.
A proporção que o dia passa, os livros de quarto esgotam os superlativos náuticos. As leituras dos barômetros caem de um modo jamais visto por qualquer marinheiro. Alguns navios registram exatamente 710 milímetros; o Dewey lê no seu barómetro 693 milímetros—possivelmente a menor leitura até hoje registrada no mundo. O navio-tanque Nantahala, juntamente com outros navios de um grupo reabastecedor localizado a nordeste do corpo principal da esquadra, próximo ao centro da tempestade, registra para velocidade do vento 124 nós. [Aproximadamente 229,80 km/h]
O vento vira, rapidamente, à proporção que a trajetória do tufão se curva, soprando do norte e do sul, de leste e de oeste—mudando de direção como fazem todos os ciclones— e aumentando de intensidade até alcançar a Força 17, muito além daquelas indicadas na tabela utilizada para a medida da intensidade do vento pelos antigos marinheiros, a escala Beaufort—a qual define o seu valor máximo, Força 12, como «um furacão com velocidade superior a 65 nós».
O vento possui milhares de notas musicais—o baixo da ameaça rosnada, o soprano dos estais tão fortemente distendidos que zumbem como cordas de arco. As cristas das vagas—mais de 20 metros do cavado à crista—estão achatadas pelo vento e são projetadas em linha reta devido à sua violência; a chuva e os borrifos misturam-se num lençol horizontal de água; ninguém pode dizer onde o oceano termina e o céu começa. Sobre todas as coisas paira a cacofonia dos navios desconjuntados que rangem, do estalido das anteparas, do ranger das colunas, do deslizar, despedaçar e rugir do entulho que escorrega de antepara para antepara.
As tentativas para permanecer em formatura ou para mudar de rumo a fim de aliviar seus balanços significam devastação para alguns navios. Alguns dos contratorpedeiros mais aliviados estão à deriva; todas as possíveis combinações de ângulos de leme e de rotação de máquinas não conseguiram tirá-los dos cavados das ondas; eles são arremessados lateralmente, jogados com violência para um e outro bordo, e os seus costados estão bastante amassados pela ação do vento e do mar,e flutuam, desgovernados, ao sabor do vento.
Os porta-aviões ligeiros e de escolta comportam-se pouco melhor. Os conveses dos hangares estão transformados em infernos de chamas e de metal que se despedaça, inferno de fogo, vento e mar.
A bordo do porta-aviões ligeiro San Jacinto os homens dos grupos de controle de avarias e combate a incêndios se amarram, eles próprios, a cabos suspensos ao teto dos hangares e, balançando e deslizando como pêndulos sobre o convés escorregadio, arriscam suas vidas para pear firmemente a massa de entulho que desliza, rangendo, de um lado para outro. As praças de caldeiras nº l e 2 do Monterey são abandonadas devido à fumaça espessa proveniente de um incêndio no convés dos hangares; as caldeiras são guarnecidas apenas pelos homens estritamente indispensáveis, usando máscaras especiais para poderem respirar; uma explosão provocada por vapor de gasolina mata um marinheiro; um outro, encurralado pelas chamas, morre queimado; muitos ficam feridos.
O contratorpedeiro Dewey luta quase até à morte. Com a tempestade uivando como um fantasma agou-rento, o sinaleiro de serviço vai rabiscando no livro de quarto, à proporção que as avarias ocorridas são transmitidas ao passadiço:
10h 20m—Leme do passadiço fora de ação; governando com o leme de ré.
11h 30m—Máquinas principais paradas—quadro de distribuição principal de energia elétrica com curto circuito devido à água salgada. Em cada um dos balanços mais fortes entram de duas a quatro toneladas de água pela aspiração da ventilação forçada principal n° 2 . . .
O navio está à matroca. A ordem dada à guarnição é permanecer a bombordo.
Jogando e caturrando mais. O inclinômetro indicou 73 graus para boreste e parou por alguns segundos.

Mas o Dewey flutua ainda quando a manhã se esvai. O mesmo não acontece com os contratorpedeiros Mo-naghan e Spence.
O Monaghan, com 12 estrelas representativas das batalhas em que tomou parte, pintadas em seu passadiço, caminha para a morte—sem que a esquadra o saiba. Suas 1.500 toneladas de aço estão devastadas e deformadas; sua baleeira de boreste embarca água quando os turcos mergulham no oceano verde. Contudo, há poucos indícios de desastre.
Cerca de meio-dia o vento empurra o Monaghan fazendo-o adernar demasiado sobre boreste. Ele se esforça para voltar novamente à posição normal—e consegue-o, porém muito vagarosamente. No alojamento a ré 40 ou 50 homens agarram-se às colunas e suplicam: «Fazei-o voltar, Santo Deus! Fazei-o voltar!» O navio volta vagarosamente à posição normal. As luzes, porém, se apagam; novamente o jogo excessivo para boreste e, como sempre, o navio luta, às sacudidelas, para fugir ao desastre.
Finalmente o vento trata-o com extrema brutalidade; o Monaghan aderna pesadamente para boreste— 30, 40, 60, 70 graus—e, esgotado, se deita sobre o costado para morrer entre um turbilhão de espuma branca e os clamores das Valquínas da tempestade. Dezoito oficiais e 238 marinheiros afundam com o navio.
O Spence desaparece quase ao mesmo tempo. Sem lastro, com pouco combustível, ele se desloca como um pedaço de cortiça e como um pedaço de cortiça é jogado entre os terríveis cavados das ondas, semelhantes a vales profundos e estreitos. O navio aderna mais de 72 graus para bombordo—e assim permanece. As luzes se apagam; as bombas param—o coração do navio morre antes que o corpo morra. Pouco antes do meio-dia o Spence afunda—2.100 toneladas de aço com a potência de 60 mil cavalos.
A esquadra está dispersa sobre uma larga extensão do oceano; alguns dos navios sentiram em toda a plenitude a fúria da tempestade; outros ainda irão senti-la. A intensidade máxima da procela é alcançada entre 11 e 14 horas.
Para o contratorpedeiro Hull, tendo a bordo a maior parte da correspondência da esquadra, o quarto de meio-dia às quatro é o último. A proporção que o vento aumenta de intensidade até atingir um valor estimado em 110 nós, «sua força deita o navio sobre o costado de boreste e mantém-no de encontro à água até que as ondas entrem no camarim de governo». O jovem Capitão-de-Corveta James Alexander Marks afasta-se de seu navio emborcado, o primeiro navio que ele comandara, num mar «batido até fazer espuma», um mar tão ávido por vidas que os coletes salva-vidas são arrancados aos pedaços das costas dos poucos sobreviventes.
O contratorpedeiro Dewey sobrevive, apesar de avariado quase mortalmente. A água verde derrama-se sobre o lais de boreste do passadiço quando o navio se inclina de cerca de 80 graus para boreste—e continua vivo para contar a façanha—talvez o primeiro navio na história marítima a sobreviver a um balanço tão forte.
Às 13 horas, o barômetro alcança sua leitura mínima. Mas o tufão já tinha feito o pior mal que poderia ter feito; às 13h e 14m o barômetro registra uma ligeira ascensão e às 14h 39m o vento abranda atingindo cerca de 80 nós. A tempestade gira para seguir em direção às vastidões do Pacífico durante o resto daquele dia—segunda-feira. Mesmo na têrça-feira os mares ainda estão horríveis—mas o grande tufão tinha passado.
Os sobreviventes do Monaghan, do Hull e do Spence são infelizmente pouquíssimos. Os navios da esquadra, esmiuçando o oceano, encontram um punhado de marinheiros esgotados e feridos, os quais compreenderão para sempre, com maior intensidade do que quaisquer outros homens vivos, o que significa a fúria do mar.
O grande tufão custou 790 homens, entre mortos e desaparecidos. Mais de 80 homens ficaram feridos; 146 aviões foram lançados pela borda fora ou avariados em tal extensão que não puderam ser reparados. Os navios menores estavam avariados e esgotados; somente a lista de avarias do Monterey cobria nove páginas dactilografadas em espaço simples. Treze navios exigiam grandes reparos e nove outros apresentavam avarias de menor vulto. Os ataques planejados contra Luçon foram cancelados e a Terceira Esquadra se arrastou—avariada e com os navios fora de formatura—para o atol de Ulithi.
Uma Comissão de Inquérito da Marinha Norte-Americana, convocada para examinar o que ocorrera, verificou «grandes erros cometidos ao ser efetuada a previsão do centro e do deslocamento» do tufão. O Almirante Chester W. Nimitz, Comandante-em-Chefe da Esquadra Americana do Pacífico, realçou que as avarias produzidas «representaram um golpe mais imobilizador do que seria possível esperar em quaisquer circunstâncias exceto em um combate de grandes proporções.» E o Almirante comandante da Força de Reabastecimento fez um comentário sóbrio: «... não existe navio sobre as águas que não possa ser virado pelo vento e pelas vagas.»



Texto retirado da revista Seleções do Reader's Digest de Junho de 1952

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Torpedos Humanos Em Gibraltar

Os heróis submarinos da Itália na Segunda Guerra Mundial


Torpedos humanos em Gibraltar


Por Frank Goldsworthy
Ex-oficial do Serviço de Informações da Marinha Inglesa em Gibraltar


 NUMA NOITE sem lua, em setembro de 1941, um submarino, com a coberta à flor d'água, penetrou na Baía de Cadiz, na costa sudoeste da Espanha, e ancorou ao longo do navio-tanque italiano Fulgor. O submarino era o Scirè da Marinha Italiana; seu comandante, o Príncipe Junio Valerio Borghese; sua missão, organizar tripulações de torpedos-humanos, para o ataque a navios ingleses fundeados em Gibraltar, a 80 milhas de distância, apenas.
Naquela noite teve início, dentro da guerra maior, uma guerra que durou dois anos, travada em silêncio sob a superfície da Baía de Gibraltar. Contra um passivo de três homens mortos e três capturados, os torpedos-humanos italianos puseram a pique ou danificaram, em sete operações, 14 navios aliados. Cada uma dessas operações exigia dos atacantes um arrojo que honraria qualquer marinha do mundo.
Quando a Itália entrou na guerra, em 1940, o navio-tanque Fulgor, de 6.500 toneladas, refugiara-se na Baía de Cadiz. Dentro de poucos meses estava transformado num posto secreto de abastecimento para submarinos italianos. Agora, a seu bordo, aguardando o Scirè, achavam-se seis operadores de torpedos-humanos que haviam atravessado a Espanha com passaportes falsos.
Minutos depois, o Scirè punha-se de novo em movimento com eles no bojo. Deslizava, periscópio apenas submerso, em direção ao extremo sudoeste da Baía de Gibraltar, em águas espanholas, distante quatro milhas do porto inglês. Enquanto se mantinha ainda abaixo da superfície, seis homens — vestindo macacões de borracha, inteiriços, com aparelhamento respiratório-subiram pela escotilha de acesso para o convés. Aí, presos em berços, estavam três torpedos de 6 metros e 70 de comprimento, com ogivas ou cabeças de combate destacáveis, para dois homens cada um. Os tripulantes—um oficial e um suboficial para cada torpedo—escarrancharam-se em seus torpedos, acionaram as alavancas de lançamento e subiram à superfície. Começava o ataque.
Os ITALIANOS chamavam ao torpedo maiale (porco), pois ele lembrava de fato um porco—e um porco nadando não seria mais difícil de manobrar... Em seu bojo o torpedo tinha reservatórios de ar comprimido para regular a profundidade e baterias para a propulsão da hélice dupla. O máximo de velocidade dos torpedos usados em 1941 era de três nós: uma velocidade maior arrebataria de seus lugares os operadores. Seu raio de ação era de dez milhas.
Os tripulantes iam escarranchados como cavaleiros. O oficial da dianteira controlava a velocidade, a direção, o mergulho, e encarregava-se ainda da sonda e bússola luminosas para uso abaixo da superfície. Normalmente os tripulantes viajavam com água até ao queixo, mas se havia barcos-patrulha por perto, prosseguiam em sua rota submersos.
Um operador de torpedo-humano narra assim um ataque:
"A gente vê a silhueta do navio-alvo contra o céu. A uns 50 metros de distância orientamo-nos, enchemos o tanque de imersão e a água se fecha sobre as nossas cabeças. Em baixo é frio, escuro e silencioso."
"Quando atingimos profundidade suficiente, fechamos a válvula de imersão, acionamos o motor e avançamos lentamente. Passamos da escuridão para uma escuridão mais profunda: estamos debaixo do navio. Paramos o motor e vamos esvaziando os tanques de água. Enquanto subimos, erguemos a mão acima da cabeça. Pensamos se iremos tocar chapas lisas ou cracas afiadas como facas, que nos cortarão os dedos, ou—horror dos horrores—a roupa de borracha que vestimos, deixando entrar a água do mar."
"Ah! Eis o fundo do navio. Fazemos o torpedo recuar até que o tripulante n° 2 possa tocar um dos frisos de 30 centímetros de largura que correm ao longo de cada lado do casco dos grandes navios. Sentimos um tapa nas costas. O n° 2 achou o friso e está fixando nele uma pinça. Dois tapas. A pinça está presa. Agora adiante, para o outro friso."
"O n° 2 está arriando um cabo. Prende a segunda pinça, depois volta ao centro do navio. O n" 2 passa em volta da gente para ir até à ogiva de combate e amarra-a ao cabo. O torpedo corcoveia levemente ao ser desligado da cabeça. O relógio que determinará dentro de duas horas e meia a explosão bate os segundos inexoravelmente. O n° 2 volta ao seu lugar. Três tapas. A tarefa foi concluída. Acionamos o motor, saímos de baixo do navio, subimos lentamente. Agora podemos pensar em fugir."
LICIO VISINTINI, o mais ousado do grupo e um dos cérebros da ofensiva de torpedos-humanos, levou seu torpedo, nessa noite de setembro de 1941, até ao interior do porto de Gibraltar. Tinha um instrumento para cortar a rede de aço que defendia a entrada do porto, mas não precisou utilizá-lo. Quando a rede foi baixada para ciar passagem a um contratorpe-se atrás dele. Deixou a sua ogiva de combate no fundo de um navio-tanque, forçou caminho por sob a rede e escapou.
As outras duas tripulações deixaram suas cabeças de combate pendentes debaixo de navios fundeados na baía, meteram a pique suas estranhas embarcações e nadaram para a costa espanhola. A sua espera na praia encontrava-se o comandante Pierleoni, oficial da Marinha Italiana, enviado diretamente à Espanha para dirigir as atividades de sabotagem, sob a capa de um cargo consular, em Barcelona. Quando conduzia os homens para longe do local, foram detidos por uma patrulha espanhola. Pierleoni resolveu explorar a simpatia do oficial espanhol pelo Eixo.
—Estes homens acabam de atacar os ingleses, disse.
O golpe foi bem sucedido. Os homens receberam roupas enxutas, café, conhaque e cigarros. Enquanto narravam sua história, um estrondo e uma nuvem de fumo indicaram que havia explodido a popa do navio-tanque Denbydale. Logo depois houve explosões semelhantes sob o cargueiro Durham e o navio-tanque Fiona Shell.
Mais tarde esse torpedeadores foram enviados de avião para a Itália, a fim de receberem os aplausos do público italiano.
PIERLEONI passou o inverno de 1941-42 organizando um grupo de sabotagem na Espanha. Em julho estava preparado para a sua primeira operação de terra contra navios aliados ancorados em Gibraltar—um ataque em massa por 12 membros do «Gamma», contingente de nadadores de assalto. Os nadadores reuniram-se numa casa perto de La Linea, território espanhol imediatamente acima da zona inglesa de Gibraltar. Na cozinha, vestiram compridos macacões de lã, sob outros, inteiriços, de borracha, em que se enfiavam desde os pés até ao pescoço, e muniram-se de aparelhamento respiratório e capacetes especiais de proteção contra as redes de aço. Eram 11 horas da noite de 13 de julho quando se dirigiram para a praia.
Nas costas e no peito cada homem carregava «bombas-despertadores»— pequenos engenhos engastados em anéis infláveis de borracha, capazes de se fixarem por pressão aos Cascos das embarcações, até que o relógio detonador esgotasse o seu tempo. Eram minúsculas aquelas cargas de dois quilos em comparação com as ogivas de combate dos torpedos-humanos, mas davam para perfurar chapas de aço. Na baía viam-se os vultos escuros de 30 navios aliados. A cada homem foi dito que escolhesse o seu objetivo.
Entre os nadadores figurava Vago Giari, um rijo camponês de ombros largos, com a destreza aquática de uma foca. Na escuridão, sob um navio que visava, Giari chocou-se com outro nadador. Discutiram por causa do objetivo. Cada um dizia que era seu.
—Estava doido, completamente doido, contou Giari depois, referindo-se ao companheiro.
Quando subiu à tona, cumprida sua missão, o outro, tendo tirado o bocal, começou a gritar com ele.
—Nunca pude compreender como a tripulação do navio não o ouviu, disse Giari.
Dessa vez ele não discutiu. Afundou a cabeça do homem na água e manteve-a assim até que ele perdeu todo o fôlego para gritar.
Seis nadadores regressaram sãos e salvos, os outros seis caíram nas mãos de uma patrulha espanhola e foram «internados» num hotel de Sevilha.
O ataque constituiu apenas um sucesso relativo. Alguns dos nadadores não atingiram seus objetivos, umas quantas bombas foram arrancadas pela força da água dos cascos onde haviam sido fixadas e explodiram na superfície. Mas quatro navios ficaram avariados. Uns dois meses depois Giari e um companheiro avariaram seriamente outro navio.
DENTRO do porto de Algeciras, à vista de Gibraltar, achava-se fundeado o navio-tanque italiano Olterra. Propositadamente arrombado em água rasa por seu comandante, na ocasião em que a Itália declarara guerra, encontrava-se em 1942 sob uma guarda de «neutralidade». Os jovens soldados espanhóis, entretanto, mostravam-se mais interessados em surrupiar cigarros do que em relatar incidentes suspeitos.
Os incidentes eram realmente suspeitos, pois eram organizados por Licio Visintini. Visintini começou a construir uma base secreta dentro do Olterra. Primeiro os italianos cortaram uma seção de 7 metros e meio de comprimento no anteparo de aço que separava o compartimento da proa de um pequeno porão, e equiparam-na com dobradiças. Dizendo aos espanhóis que tinham necessidade de limpar os tanques de flutuação, esvaziaram os tanques da proa até que esta se ergueu bem alto fora d'água.
Certa madrugada, com a sentinela espanhola dormindo um sono pesado de conhaque, fêz-se a abertura de uma porta no casco do navio, abrindo para o compartimento da proa, abaixo da linha d'água normal. A porta abria para dentro—e fechava tão bem que só mesmo um mergulhador poderia dar por ela. Quando o navio voltou à nivelação normal, o compartimento da proa alagou, mas o porão ficou seco.
O plano era pendurar torpedos-humanos em polias no compartimento da proa. Nas noites de ataque, poderiam ser lançados à água, passando pela porta feita no casco.
Inicialmente, porém, os torpedos tiveram de ser trazidos da Itália. Dêsse modo, os italianos disseram aos espanhóis :
—Temos de reparar as máquinas do navio para nos prepararmos para a vitória.
Se os espanhóis se houvessem mostrado curiosos sobre os caixotes de «tubos para caldeira» que chegaram em caminhão da Itália, teriam descoberto em cada um deles um torpedo-humano de 6,70 m de comprimento.
Diversos ataques foram lançados do Olterra. O primeiro, na noite de 7 de dezembro de 1942, custou a vida a Visintini e seu companheiro. Todas as noites a Marinha Inglesa fazia disseminar, a pequenos intervalos de tempo, cargas explosivas nas águas do porto. Uma dessas cargas matou os dois torpedeiros. Seus corpos foram encontrados duas semanas depois dentro do porto de Gibraltar. Mas o segredo do Olterra continuou inviolado.
Só em maio de 1943 os italianos conseguiram trazer «maquinaria» suficiente para que o Olterra reiniciasse seus ataques. Desta vez abandonaram a esperança de penetrar no porto de Gibraltar, passando a escolher como objetivo navios ancorados ao largo. Na noite de 7 de maio três torpedos-humanos, partindo do Olterra, efetuaram um novo ataque e regressaram sem baixas. Dois cargueiros aliados foram pesadamente danificados, um terceiro perdeu-se inteiramente.
Outro ataque vindo do Olterra teve lugar a 3 de agosto de 1943, dirigido pelo comandante Ernesto Notari. Sob o objetivo—o navio norte-americano Harrison Grey Otis, tipo Liberty, de 7.000 toneladas—Notari encontrou um novo dispositivo de defesa, arame farpado pendente na escuridão. Seu auxiliar era o sub-oficial Giannoli, um substituto de última hora. Relativamente bisonho, Giannoli deixou escapar o cabo que deveria ser passado de um para outro dos frisos laterais e a cabeça do torpedo teve de ser diretamente pinçada à quilha. Enquanto isso se fazia, o torpedo começou a subir. Notari abriu demais as válvulas de emersão e o torpedo mergulhou sem controle. Com os pulmões estourando, a cabeça rébentando, Notan lutava com os controles, enquanto a agulha do indicador de profundidade ia passando do limite de 34 metros—três vezes a profundidade normal de treinamento.
Tão rápido como mergulhara, o torpedo disparou para a superfície. Notari pensou espatifar a cabeça de encontro ao fundo do navio ou estraçalhar a roupa de borracha nos arames farpados, mas, com um forte ruído peculiar, o torpedo rompeu a água e se encontrava a um metro de distância do navio.
Semi-inconsciente, incapaz de pensar ou de agir, Notari permaneceu tombado sobre os botões de controle, aguardando gritos ou tiros. Nada aconteceu. Lentamente, readquiriu a capacidade de raciocínio. O motor só funcionava à velocidade máxima, e, a essa velocidade, mergulhar era impossível.
Optou pela única possibilidade de salvação que lhe restava—a retirada a toda velocidade pela superfície, numa extensão de cerca de quatro milhas, esperando que a qualquer momento a viva fosforescência da água em sua esteira pusesse um barco-patrulha no seu encalço.
Então aconteceu um milagre. Um cardume de golfinhos fez-lhe companhia até Algeciras, brincando e proporcionando-lhe assim um perfeito disfarce para a sua esteira e um regresso seguro ao Olterra.
Nesse ínterim, Giannoli, arrancado de seu assento no torpedo pela velocidade do mergulho, mantinha-se à tona, do outro lado do navio, pensando que Notari se tivesse afogado. Nadou para a popa, desvencilhou-se do equipamento respiratório e do invólucro de borracha e, durante duas horas, deixou-se ficar agarrado ao leme, gelando na água por dentro do macacão de lã.
Quando, pelos seus cálculos, seus companheiros já deviam estar de volta ao Olterra e, portanto, se aproximava o momento da explosão da ogiva de combate que ele próprio havia fixado, nadou ao longo do navio e gritou por socorro.
Foi içado para bordo. A notícia de sua captura foi imediatamente radiografada para o Comando Naval, que, sem perda de tempo, enviou uma lancha-patrulha, com um tripulante mergulhador, ao Harrison Grey Otis, para recolher o prisioneiro e examinar o navio. A lancha foi atada junto ao costado.
Já Giannoli tinha sido levado para a lancha e o suboficial Bell, o mergulhador, estava metendo o pé na água, quando a carga de 230 quilos explodiu do outro lado do navio.
A explosão abriu um enorme rombo na casa das máquinas. Um estilhaço, atravessando toda a largura do navio, matou o marinheiro que guardava Giannoli junto à roda do leme.
Minutos depois dessa explosão, a ogiva de combate do aspirante Cella partia em dois o navio-tanque norueguês Thorshovdi, espalhando pela baía grandes manchas de óleo grosso. A terceira bomba avariou seriamente o Stanridge, navio inglês de 6 mil toneladas. Os três navios afundaram em água rasa.'
Com exceção de Giannoli, todos os italianos regressaram sãos e salvos ao Olterra, partindo no dia seguinte para a Itália.
Os GRUPOS de assalto italianos não limitaram suas atividades à área de Gibraltar. Em 1941, três torpedos-humanos italianos penetraram no porto de Alexandria e, graças à ação dos seis homens que os tripulavam, alterou-se do dia para a noite o equilíbrio do poder naval no Mediterrâneo oriental, ficando os Aliados em inferioridade.
Às três horas da madrugada do dia 19 de dezembro, dois italianos—o Tenente de La Penne e o suboficial Bianchi—foram vistos nadando ao longo do navio de combate Valiant, que se encontrava no porto, juntamente com seu companheiro de classe, o Queen Elizabeth. Os dois homens foram içados para bordo, mas nenhum deles respondeu às perguntas que lhes foram feitas. O Comandante Morgan (mais tarde Vice-Almirante Sir Charles Morgan) ordenou sua detenção no porão do navio, no ponto em que imaginava que houvessem colocado uma ogiva de combate. Por espaço de duas horas e meia os italianos permaneceram calados.
Às 5 e 45, o Tenente de La Penne pediu para falar ao comandante. Disse:
—Quero preveni-lo de que seu navio vai sofrer uma explosão em poucos minutos.
Não quis dizer mais nada. O comandante Morgan deu ordens para que a tripulação subisse ao convés e mandou fechar as portas de vedamento d'água. Às 6 horas e 4 minutos uma forte explosão pôs o Valiant fora de ação. Não houve baixas a lamentar.
Quase simultaneamente a casa das máquinas do Queen Elizabeíh foi avariada e inundada por outra explosão de igual violência. Um navio-tanque ancorado perto perdeu a popa e as hélices.
Em 1944, depois do armistício italiano, o Tenente de La Penne ingressou nas unidades de assalto dos Aliados e tomou parte, com distinção e nobreza, num ataque combinado anglo-italiano aos navios do porto de Spezia, sob domínio alemão. Um cruzador e um submarino foram afundados. O Almirante Morgan pretendeu obter para o Tenente de La Penne uma condecoração britânica, mas a Itália estava ainda em guerra com a Inglaterra e a condecoração foi recusada.
EM MARÇO de 1945 o Príncipe Regente da Itália foi a Taranto inspecionar as unidades navais italianas que serviam junto aos Aliados, e distribuiu condecorações. O Tenente de La Penne adiantou-se para receber a medalha de ouro concedida por sua bravura no ataque ao Valiant. O Príncipe Umberto voltou-se para o Almirante Morgan:
—Venha  aqui, Morgan, disse. Isto lhe compete.
O Almirante Morgan tomou a medalha e colocou-a no peito do homem que  três anos antes pusera fora de ação o navio sob seu comando.



Texto extraído da revista Seleções de Reader's Digest de fevereiro de 1951

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O setembro negro de 1939: as origens da 2ª Guerra Mundial

Pôster do exército alemão promove o ideal de Hitler: enquanto nós lutamos você também deve trabalhar pela vitória Foto: Reprodução
Pôster do exército alemão promove o ideal de Hitler: "enquanto nós lutamos você também deve trabalhar pela vitória"
02 de setembro de 2009

Voltaire Schilling*
Especial para o Terra

Na madrugada do dia 1º de setembro de 1939, um milhão e meio de soldados alemães, fortemente apoiados pela aviação e por divisões mecanizadas, adentraram pelas fronteiras da Polônia e, em pouco tempo, colocaram as forças armadas daquele pequeno país europeu fora de combate.
Deram início, com aquela invasão, à mais pavorosa das guerras até então vistas pela humanidade. Uma tragédia que se estendeu por seis anos até a capitulação final do Terceiro Reich e de seus aliados entre maio e agosto de 1945.
A Grande Catástrofe
A Segunda Guerra mundial foi a maior catástrofe provocada pelo homem em toda a sua longa história. Envolveu 72 nações e foi travada em todos os continentes direta ou indiretamente. O número de mortos é de cerca de 70 milhões, havendo ainda uns 28 milhões de mutilados.
É difícil calcular quantos outros milhões saíram do conflito vivos, mas completamente inutilizados devido aos traumatismos psíquicos a que foram submetidos - bombardeios aéreos, torturas, fome e medo permanente. Outra de suas características, talvez a mais devastadora, foi a supressão da diferença - até então existente e respeitada - entre aqueles que combateram no front de guerra e a população civil na retaguarda.
Ela não isentou ninguém, foi brutal com todos. Como disse Joseph Goebbels, no seu famoso discurso pronunciado no Sport Palace de Berlim em 18 de fevereiro de 1943, o conflito transformou-se numa "totaler krige", ou "guerra total", visto que, conforme o choque foi se prolongando, nenhum dos envolvidos selecionou seus objetivos militares excluindo os civis.
Atacar a retaguarda do inimigo, suas cidades, suas indústrias, suas estradas de ferro e de rodagem, seus hospitais e casas de repouso, suas usinas e reservatórios de água, matar suas mulheres, crianças e velhos passou a fazer parte daquilo que os estrategistas eufemisticamente classificavam como "guerra psicológica" ou "guerra de desgaste".
Naturalmente que a evolução da aviação e das armas autopropulsoras permitiu que a antiga separação entre linha de frente e retaguarda se visse na prática abolida.
Custo e mobilização
Se a Primeira Guerra Mundial causou um custo de US$ 208 bilhões, a de 1939-1945 atingiu a impressionante cifra de US$ 1,5 trilhão de dólares, quantia que, se investida no combate à miséria humana, teria sumido da face da terra. Aproximadamente 110 milhões de homens e mulheres foram mobilizados, dos quais apenas 30 % não sofreram morte ou ferimento.
Como em nenhuma outra, o engenho humano foi mobilizado integralmente para criar instrumentos cada vez mais mortíferos, sendo empregada a bomba de fósforo, o napalm e, finalmente, a bomba atômica (lançada sobre as cidades nipônicas de Hiroshima e Nagasaki). Como nunca em qualquer outro conflito generalizado, estabeleceu-se uma política de genocídio em massa construindo-se campos especiais para tal fim.
Como bem disse o historiador R.A.C. Parker: "o conceito que a humanidade tinha de si nunca voltará a ser o mesmo".
O cenário que levou à catástrofe
Quase todos os historiadores concordam que a causa diplomática mais profunda da Segunda Guerra Mundial tem sua origem nos Tratados de Paris, assinados entre as potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial (EUA, Inglaterra e França) e as vencidas (Alemanha e Áustria) em Versalhes.
A Alemanha se viu despojada da Alsácia-Lorena (que havia conquistado na guerra franco-prussiana de 1870), como teve de ceder à Polônia uma faixa de território que lhe dava acesso ao Mar Báltico. A cidade alemã de Danzig passaria ao controle da Liga das Nações e o território do Sarre, rico em carvão foi cedido por um período de 15 anos à França.
Também foi vedado à Alemanha possuir um exercito superior a 100 mil homens; exigindo-se a desmilitarização da Renânia, região fronteiriça com a França, assim como o desmantelamento das fortificações situadas a 50 km do rio Reno. A outrora grande potência da Europa viu-se compelida a entregar todos os navios mercantes cujo peso ultrapassasse a 1,6 tonelada, assim como ceder gado, carvão, locomotivas, vagões cabos submarinos.
Sua dívida sonante para com os aliados foi fixada na Conferencia de Bolonha, em 21 de junho de 1920, em 269 bilhões de marcos-ouro a serem pagos em 42 parcelas anuais.
Não poderia, por igual, desenvolver pesquisas bélicas, possuir submarinos ou realizar projetos militares. Enquanto isto, o velho Império Austro-Hungaro foi desmembrado pelo tratado de Paz de St. Germain-em-Laye, tendo que entregar o Tirol do Sul para a Itália e reconhecer a independência da Hungria, Checoslováquia, Polônia e Iugoslávia, além de lhe ser vedado a união com a Alemanha. A república austríaca, proclamada em 1918, viu-se proibida de possuir um exercito superior a 30 mil homens.
Estas sanções aplicadas pelos vencedores tornaram-se fonte de amargos rancores que facilmente foram explorados pela extrema direita nacionalista, os nazistas e capacetes-de-aço, que começaram a proliferar na Alemanha em 1919.
O grande erro do Tratado de Versalhes foi ter ferido profundamente o sentimento nacional dos alemães, e, por outro lado, não lhes ter suprimido o potencial industrial. Com 65 milhões de habitantes, e tendo um enorme parque fabril à disposição, era inevitável que a Alemanha, mais cedo ou mais tarde, voltasse a querer ocupar o seu lugar no rol das potencias européias.
Os diplomatas de 1919 se esqueceram da lição do Congresso de Viena, realizado em 1815, quando os vencedores de Napoleão procuravam não humilhar a França, a nação mais povoada da Europa Ocidental naquela época, para que um espírito de vingança não criasse raízes no coração dos seus cidadãos de então.
Esta contradição entre potencial demográfico e industrial, e o não-reconhecimento diplomático de um estatuto privilegiado para a Alemanha, terminou por fazer com que a ascensão de Hitler fosse possível.
O resultado direto das perdas territoriais impostas pelo Tratado de Versalhes fez com que a Alemanha perdesse 14,6% de suas terras aráveis, 74,5% de suas reservas de ferro, 68,1% do seu zinco e 26% dos seus recursos carboníferos.
Perdas territoriais da Alemanha em 1919:
Eupen-Malmedy - entregue à Bélgica
Renânia - desmilitarizada
Bacia carbonífera do Sarre - entregue à França
Alsácia e Lorena - devolvida à França
Schleswig - entregue à Dinamarca
Danzig - controlada por Polônia e Liga das Nações
Prússia - entregue à Polônia
Memel - controlada pela Liga das Nações
Silésia Superior - explorada pela Polônia
Um cordão de ferro ao redor da Alemanha
Os aliados ocidentais, principalmente a França, ao estimularem o surgimento de novos Estados nacionais na Europa Centro-Oriental, visavam substituir a Rússia - então em plena guerra civil - como um fator de dissuasão para qualquer tentativa alemã de agressão.
A Checoslováquia e a Polônia assinaram tratados de defesa mútua com a França e com a Inglaterra. Esperava-se que estes dois países obrigassem os alemães a lutar em duas frentes - como ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial - caso tentassem repetir o erro de 1914.
Tinham em mente a imagem de um cordão de ferro passado ao redor das fronteiras alemãs. A França, por sua vez, numa falsa avaliação da guerra de trincheiras, iniciou a construção da Linha Maginot, um complexo sistema defensivo que partia da fronteira suíça até a Bélgica.
Desta forma, esperava evitar um ataque de supresa por parte de seu poderoso vizinho. No entanto, os efeitos morais e psicológicos desta atitude defensiva tiraram do exército francês qualquer alternativa ofensiva, limitando-se a ter que agir caso os alemães o fizessem primeiro.
A Inglaterra, no período entre-guerras, tornou-se cada vez mais apaziguadora, segura de sua situação estratégica e de possuir a mais poderosa frota naval do mundo, dando-lhe a proteção suficiente caso houvesse um novo conflito.
Os EUA - governados por uma série de presidentes republicanos - voltaram, nos anos 20, a adotar a política do isolacionismo, não querendo envolver-se nas querelas dos países europeus. Estas ambigüidades e contradições dos vencedores de 1918 foram habilmente exploradas por Hitler na década dos anos 30.
Causas econômicas
A crise econômica que se abateu sobre o sistema capitalista mundial, a partir de outubro de 1929, foi o fator mais poderoso para que um novo rearranjo do poder em escala mundial fosse ambicionado. A depressão econômica da década de trinta levou os paises capitalistas a tomar medidas protecionistas, visando a salvar os mercados internos das importações estrangeiras, ocorrendo uma verdadeira guerra tarifária.
A produção mundial reduziu-se em 40%, sendo que a diminuição do ferro atingiu a 60%, a do aço 58%, a do petróleo 13% e a do carvão 29%. O desemprego atingiu, com força, os principais países industrializados: 11 milhões perderam o trabalho nos EUA, 6 milhões na Alemanha, 2,5 milhões na Inglaterra, e um número um pouco superior na França. Não está longe da verdade o fato de ter provocado a aflição e o desemprego em mais de 70 milhões de pessoas, contando-se os seus dependentes.
Como a economia já estava suficientemente internacionalizada - com exceção da URSS, que se lançava nos chamados planos qüinqüenais - todos os continentes foram atingidos, aumentando ainda mais a miséria e o desemprego ao redor do mundo. A América Latina, por exemplo, teve que reduzir em 40% suas importações e sofreu uma queda de 17% em suas exportações.
É nesse contexto caótico que a Alemanha, no ocidente, e o Japão, no oriente, dominadas pela retórica hiper-nacionalista, tentaram explorar o debilitamento de seus rivais, todos grandes impérios coloniais. Uma nova luta por mercados e novas fontes de matérias-primas levaria o mundo à Segunda Guerra Mundial.
Causas políticas
A conjuntura externa caótica, e a situação interna de desespero, conduzem Hitler ao poder na Alemanha em janeiro de 1933. Atuando implacavelmente, em menos de um ano sufocou todos os movimentos oposicionistas (sociais-democratas, comunistas e liberais), dando inicio à Revolução Nacional-Socialista, que tinha como objetivo fazer a Alemanha retornar ao grau de potência europeia.
Naturalmente que para tal era necessário romper com o tratado de Versalhes, pois este impedia a conquista do "espaço vital" como o rearmamento. Atenuava-se o desemprego e atendiam-se necessidades da poderosa burguesia financeira e industrial da Alemanha.
Para evitar a má vontade das potências ocidentais, Hitler colocou-se como campeão do anticomunismo em nível mundial, assinou com o Japão, em novembro de 1936, e com a Itália, em janeiro de 1937, o Pacto Anti-Comintern, cujo objetivo era ampliar o isolamento da URSS e, quando for possível, invadi-la.
O Japão, que igualmente passou por convulsões internas graves, deu inicio, em 1931, a uma política externa agressiva, explorando o enfraquecimento dos Impérios Coloniais europeus que se mostram impotentes para superar a crise econômica.
Em 1937, após ter ocupado a rica região da Manchúria, invade o resto do território chinês, começando deste modo o longo conflito na Ásia. Seu expansionismo vai terminar por chocar-se com os interesses americanos nas Filipinas, e levar à guerra contra os EUA.
A Polônia destruída
Às 4h40 da madrugada do dia 1º de setembro, uma colossal força de guerra alemã, partindo de três pontos da fronteira polonesa, rumou rapidamente para a região central do país.
Ela obedecia ao comunicado expresso por Hitler um dia antes que afirmava: "por ordem do Führer e do Supremo Comando da Wehrmacht, as forças armadas alemãs assumiram a defesa ativa do Reich. Dando cumprimento à sua missão de resistir à ameaça polonesa, tropas do exército alemão lançaram, hoje cedo, um contra-ataque. Simultaneamente, esquadrões da força aérea voam em direção à Polônia com a ordem de esmagar objetivos militares."
O governo polonês, do presidente Ienacy Móscicki, havia disposto suas forças militares bem próximas à fronteira ocidental com a Alemanha, numa inútil tentativa de deter a máquina militar que se movia célere contra as defesas do seu país.
Divididos em dois grandes grupos - o do norte, com 630 mil soldados, e o do Sul, com 882 mil, ambos sob comando do general Walther Von Brauchitsch - e apoiados por 2,4 tanques distribuídos entre 14 divisões mecanizadas, e com o céu coberto pelos bombardeios convencionais e de pique que decolavam em massa dos aeroportos alemães, os exércitos invasores não tiveram muita dificuldade em cercar e aniquilar os poloneses dentro do espírito do que os altos-comandos germânicos chamavam de "vernichtungsgedanke", ou operação de aniquilação.
Quatro dias depois do ataque inicial, a guerra estava praticamente decidida. Os alemães registram 45 mil baixas (entre mortos, feridos e desaparecidos), menos de 3% das tropas usadas na Operação Fall Weiss.
No dia 27 de setembro, a capital Varsóvia negociou sua capitulação com o comando vencedor. As esperanças que os poloneses guardavam de receber algum tipo de apoio da Grã-Bretanha ou da França se esvaíram totalmente. Para cumulo da infelicidade deles, obediente à clausula secreta do Pacto Germano-Soviético de agosto de 1939, a URSS, vinda do Leste, também atacou a Polônia apenas 17 dias depois dela ter sido invadida pela Alemanha nazista.
Em menos de trinta dias, a república da Polônia deixara de existir, vítima da maior batalha de cerco e aniquilação até então conhecida na história moderna.
Por tudo isto, o mês de setembro de 1939 revelou-se uma data negra na história da humanidade, um momento infeliz que deu a largada para o destroçar de grande parte do patrimônio cultural e civilizatória das nações envolvidas pela guerra.
*Voltarie Schilling é historiador e escreve regularmente para o Terra na seção História do site de Educação.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O Homem Mais Perigoso da Europa


Onde estará o ousado chefe dos sabotadores de Hitler?

O homem mais perigoso da Europa
(Condensado de «Argosy») Por Thomas M. Johnson

UM GIGANTE de cabelo castanho, belo tipo de homem, com uma cicatriz que vai da orelha esquerda até o queixo, entra no Quartel General norte-americano perto de Salzburg, na Áustria, no dia 17 de maio de 1945. Em continência, leva a mão à pala do quepe tombado para a direita, onde se vê a insígnia da Guarda de Elite de Hitler, e declara com toda a calma:
—O tenente-coronel Otto Skorzeny, da S.S., entrega-se.
Para o praça americano de serviço, a rendição de alemães já era coisa tão comum quanto a sua própria ração alimentar. Indolentemente gesticulou com o polegar, dizendo:
—Muito bem, Otto. Pode ir para o xadrez.
O oficial lançou um olhar com o sobrolho carregado e fez meia-volta. A luz se projetou sobre filas de medalhas, sobre um par de olhos azuis que revelavam frieza. Um oficial do Serviço de Informação, metido numa farda velha, fitou o pulso do recem-chegado. —O relógio de Mussolini, disse calmamente ao praça. —E o tal Skorzeny, o mais importante agente secreto inimigo que estava em nossa lista para ser apanhado.
Nossos caçadores de espiões não tinham inimigo mais perigoso que esse astuto e ousado aventureiro de 1,90 m de altura e 100 quilos de peso. Ele chefiara o maior plano de sabotagem jamais dirigido contra as forças norte-americanas, hábil truque pelo qual alguns nazistas, com uniforme das forças dos Estados Unidos, haviam disseminado confusão na retaguarda das linhas norte-americanas na Normandia e, sob ameaça de assassinato, tinham forçado o Estado-Maior do general Eisenhower a manter o irado supremo comandante das forças aliadas virtualmente prisioneiro em seu próprio Quartel General, durante dez dias.
Mais de um ano antes, com menos de 50 homens, ele arrebatara Mussolini a uma guarda de 400 italianos, no pico de uma montanha, deixando o Duce tão surpreso quanto radiante. Esse rapto, levado a efeito com planadores e aviões pequenos, permitiu a Mussolini estabelecer um novo governo no norte da Itália e contribuiu para que os alemães prolongassem a resistência. O ditador italiano presenteou-o com um relógio de pulso, trabalhado; Hitler lhe deu a Cruz de Cavaleiro... e outras missões delicadas.
Em outubro de 1944, espiões alemães haviam informado que o almirante Nicholas Horthy, regente da Hungria, estava para renunciar à sua aliança com Hitler e se unir a Stalin. Skorzeny escalou o muro do castelo de Horthy, verificando então que o almirante fugira depois de irradiar a rendição de seu país. Alguém revelou o esconderijo de Horthy e, enquanto os russos procuravam forçar os portões, Skorzeny levou-o cativo para Munique. Na Jugoslávia, Skorzeny ajudara a impedir que Mihailovitch e Tito se unissem contra os alemães. Foi depois do incidente com Horthy que Hitler entregou ao seu homem de confiança a missão que viria coroar-lhe a carreira. O Fuehrer estava planejando um último e frenético golpe, uma estratégia de desespero. Contra a frente norte-americana, na acidentada região das Ardenas, fracamente guarnecida afim de poupar tropas para serem usadas em outros ataques, ele iria lançar suas últimas reservas estratégicas, encabeçadas por divisões blindadas de elite. Essas unidades avançariam para o norte, cercariam metade das tropas norte-americanas, inglesas e canadenses que se achavam na Europa, e se apoderariam dos seus enormes suprimentos bem como do seu melhor porto—Antuérpia. Segundo esperava Hitler, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha ficariam, assim, paralisados por tempo suficiente para que os alemães produzissem bombas V, aviões de propulsão a jacto e submarinos de novo tipo em quantidade capaz de assegurar-lhe a vitória final, apesar dos reveses já sofridos.
"Existe, porem, um obstáculo," confessou Hitler secretamente a alguns de seus auxiliares. "Como tomaremos as pontes sobre o Mosa de maneira que nossas divisões blindadas o possam cruzar?... Ah, já sei! Tragam aqui o Skorzeny!"
Em uma sala secreta, onde se discutiam planos de guerra, no dia 22 de outubro, o Fuehrer—apresentando ainda contrações dos músculos faciais em consequência da explosão da bomba com que em julho pretenderam tirar-lhe a vida—confiou a Skorzeny seu audacioso estratagema. Skorzeny teria que escolher, entre as forças armadas, um destacamento especial composto de 2 mil indivíduos destemidos, todos capazes de falar inglês. Eles usariam fardas de norte-america-nos prisioneiros ou mortos, e seriam enviados para as linhas ianques como espiões, sabotadores e disseminadores de notícias tendentes a destruir o moral das tropas. A eles competiria tomar as pontes sobre o Mosa e garantir a passagem do grosso das tropas. Skorzeny tinha de estar pronto para agir em menos de dois meses.
Skorzeny reuniu os seus homens em Friedenthal (Vale da Paz!), perto de Oranienburg, e os familiarizou com o equipamento, as armas, as formações, a hierarquia e os costumes dos norte-americanos. "Não sejam demasiado marciais," ordenou ele. "Nada de batida de calcanhares."Dando-lhes cigarros norte-americanos, ensinou aos subordinados como acendê-los à maneira dos ianques. Receberam cartões de identidade do Exército ianque, dinheiro americano e até cartas e fotografias dos Estados Unidos. A operação foi cognominada de «Greif», ou seja, «Grifo», o animal mitológico.
Mas a operação não podia permanecer totalmente secreta. O Serviço de Informação do Primeiro Exército Norte-Americano interceptou uma ordem para que os soldados alemães que falassem inglês se apresentassem a Skorzeny. Conhecida, como era, a reputação deste, o coronel americano Benjamin A. Dickson fez uma comunicação, em 10 de dezembro, na qual declarava: "A ordem é obviamente um presságio de operações especiais de sabotagem, ataques a centros de comando e outras instalações vitais, por especialistas infiltrados nas fileiras ou lançados em para-quedas." E acrescentou: "Um prisioneiro inteligente, cujas declarações coincidiram perfeitamente com fatos apurados, informou que se estão coordenando todos os meios possíveis para uma grande contra-ofensiva que se avizinha."
Oficiais de alto posto, do Serviço de Informação dos Aliados, estavam, porém, em dúvida. Não foram mais enviadas tropas norte-americanas para a frente das Ardenas. E no dia 16 de dezembro os nazistas atacaram.
Enquanto 17 divisões alemãs, a que se seguiram mais 12, avançavam destruidoramente na batalha que se tornou uma das maiores da guerra, milhares de canhões alemães abriam caminho através das acidentadas Ardenas, então envoltas em neve. Entrementes, os "americanos" de Skorzeny, em jeeps americanos capturados, agiam livremente. Fazendo, para as unidades alemãs, sinais combinados, como o erguer de capacetes ou o piscar de lâmpadas de bolso com luz colorida, eles trafegaram pela agitada frente norte-americana, localizando pistas de aterrissagem de aviões e depósitos de suprimentos e explorando as vias por onde os reforços norte-americanos lutavam para alcançar o seu destino. Isso contribuiu para que a artilharia alemã infligisse pesadas perdas ao adversário. Os sabotadores obstruíram as estradas com troncos de árvores, arrebentaram fios de telefone, atrapalharam o tráfego, trocando as placas indicativas e, com a remoção de avisos dos campos minados, destruíram caminhões. Um deles, envergando a farda da polícia militar norte-americana, postou-se-numa encruzilhada e fez sinal a um regimento ianque indicando o caminho errado.
A princípio, poucos americanos se aperceberam de que entre eles havia inimigos disfarçados, agindo de maneira tão nociva. Mas no dia 18 de dezembro, em Aywaille, na Bélgica, a polícia militar interrogou três soldados que não conheciam a senha. Possuíam documentos segundo os quais eles pertenciam à Quinta Divisão Blindada e contaram histórias muito persuasivas, mas "eram excessivamente corteses". Isso foi o bastante para os levar a depender da misericórdia do tenente Frederick Wallach, ex-juiz alemão, evadido de Dachau e encarregado de interrogar os nazistas capturados pelo Primeiro Exército Norte-Americano. A estratégia que ele adotou consistiu em censurá-los por não terem vergonha de usar outro uniforme que não o do Exército Alemão. O truque surtiu efeito. "A história que eles contaram corrobora aquela ordem capturada," Wallach relembrou aos seus superiores. Para muitos dos oficiais ianques, porem, o plano parecia "fantástico demais". Em breve, oficiais da Contra-Informação deram com um rádio e um código alemães em um jeep recapturado, e radiotelegrafistas norte-americanos ouviram tripulantes de jeeps enviar relatórios de danos infligidos a coberto de uniformes norte-americanos.
Isso motivou uma colossal caça a espiões. Soldados da polícia militar norte-americana e do Serviço de Contra-Informação, sempre que desconfiavam da nacionalidade dos tripulantes de jeeps e outros veículos, encostavam-lhes o cano do fuzil nas costelas e faziam-lhes uma série de perguntas corriqueiras, mas que só podiam ser respondidas com acerto por quem tivesse morado nos Estados Unidos. Alguns motoristas, amedrontados pelas perguntas, denunciavam-se involuntariamente, procurando acelerar o carro; outros, tentando varar as barreiras das estradas.
No dia 19 de dezembro, agentes da Contra-Informação descobriram dois supostos segundos-tenentes ianques em um jeep observando a passagem de reforços americanos. Inquiridos, exibiram atestados de vacina e medalhas de identificação, contando minuciosas histórias de sua vida militar. Tinham sido treinados, disseram eles, em Camp Hood. Quase satisfeito, um dos agentes perguntou:
—Já estiveram no Texas?
—Não, nunca, respondeu um dos alemães.
—Mãos ao alto! bradou o agente, puxando a pistola. —Camp Hood é no Texas!
Em Liége—num cruzamento do rio Mosa, um dos objetivos especiais de Skorzeny—tripulantes de um jeep arrojadamente indagaram onde ficava o quartel general da Zona de Comunicações. Instantaneamente, os homens se viram rodeados por soldados da polícia militar fortemente armados. Wallach foi chamado para aplicar a técnica da "vergonha" a um tenente recém capturado. Este em breve passou a dar nomes, descrevendo todos os oficiais de Skorzeny e fornecendo pormenores: a 150ª Brigada Panzer, também sob o comando de Skorzeny, usando tanques americanos, estava se fazendo passar por tropas ianques em retirada até que pudesse apoderar-se das pontes sobre o Mosa.
Levado ao quartel do Primeiro Exército para novo interrogatório, o tenente começou por dizer que contara tudo quanto sabia.
"Muito bem," responderam-lhe. "Vamos levá-lo ao Comissário."
Como a maioria dos alemães, o tenente tinha pavor dos russos e, diante de um gigante em uniforme do Exército Vermelho que lhe fazia perguntas em alemão com sotaque estrangeiro (pois era norte-americano), empalideceu, confessando com voz rouca: "Queremos pegar Eisenhower também. Skorzeny e outros farão o papel de oficiais americanos conduzindo generais alemães capturados para o Supremo Quartel General em Versalhes, afim de serem interrogados. Eles viajarão em automóveis americanos. Uma vez lá dentro do quartel-general, voltarão as armas para os membros do Estado Maior, e Eisenhower será raptado ou morto pelo próprio Skorzeny. "
A história podia ser pura invenção, mas o Supremo Quartel General das Forças Expedicionárias Aliadas (SHAEF), conhecendo Skorzeny, achou mais prudente acautelar-se. O Hotel Trianon e outros edifícios que alojavam o SHAEF foram cercados de arame farpado, tanques e quase mil soldados e elementos da polícia militar bem armados. Estes, nas estradas, examinavam os passes em pontos distantes e "saudavam" com interrogatórios e metralhadoras todos os que se aproximavam. Cinco agentes da Contra-Informação estavam encarregados de exigir que todos os visitantes de Eisenhower fossem identificados por um ajudante de ordens. O general mudou-se para uma casa no mesmo conjunto murado, cujas portas, janelas e teto estavam sob contínua vigilância. Por vários dias ele não saiu de casa, pois a Contra-Informação receava que atiradores inimigos o alvejassem de longe. Mas seu espírito ativo acabou por se rebelar e ele exclamou: "Às favas tudo isso! Eu vou dar uma volta!" Atendeu, porém, aos pedidos do seu Estado-Maior quando soube que, se não ficasse dentro de casa, os seus auxiliares imediatos destacariam, para protegê-lo, ainda mais soldados, tão necessários em outros setores da luta.
Entrementes, na Normandia, cerca de 50 tanques norte-americanos da 150ª Brigada Panzer haviam pegado de surpresa um batalhão blindado americano e liquidado metade dele. "Nossos próprios tanques estão atirando contra nós!" correu o alarme. Foram então destacados alguns soldados da polícia militar com instruções de comunicar qualquer movimento de tanques não estabelecido no plano de operações. Foi suspenso o tráfego no Rio Mosa, ambas as margens passaram a ser patrulhadas e quem quer que tentasse atravessar o rio era preso e examinado. Por esse meio, foram presos 54 alemães em uniformes aliados ou à paisana.
Disseminando notícias de derrotas, os sabotadores da 150ª Brigada Panzer disfarçada estavam a ponto de atingir a última linha de defesa norte-americana avançada sobre o Mosa. Em Malmédy, Skorzeny encontrou a artilharia americana pronta para entrar em ação. Assim, antes de atacar, mandou soldados a pé para indagarem dos artilheiros quantas peças tinham, e de que espécie eram. Os espertos artilheiros agarraram os impostores, e os canhões deram a resposta. Os tanques americanos roubados foram destruidos e de suas ruinas foram retirados numerosos alemães, mortos e vivos, todos com fardamento americano.
O Primeiro Exército começou no dia 22 de dezembro a julgar os sabotadores em um tribunal militar. As alegações que faziam em sua defesa podiam ser assim resumidas:
Oficial: "Eu cumpro ordens. Se me mandassem atirar em minha mãe, eu atiraria."
Soldado: "Pela mãe-pátria praticamos até mesmo os atos mais vis."
Todos foram condenados por terem violado as leis de guerra ao usarem uniforme do inimigo atrás de suas linhas, para ludibriá-lo e praticar atos de espionagem e sabotagem. A sentença de morte foi executada em Henri Chapelle, na Bélgica, por um pelotão de fuzilamento.
Ninguém sabe quantos participantes da "Operação Greif" morreram em batalha, mas é certo que uns 130 foram executados após julgamento. A Contra-Informação do Primeiro Exército divulgou os seus nomes pela Rádio Luxemburgo, com detalhes sobre a "Operação Greif" e uma descrição dos oficiais ainda não capturados, especialmente Skorzeny. O corpulento austríaco chegou tão perto do campo de luta, que um fragmento de granada o feriu. Ele aguardava uma oportunidade de levar avante o que restava de sua 150ª Panzer, em sua missão de engano e morte. A irradiação foi a prova final de que a oportunidade lhe havia escapado. Relutantemente, Skorzeny disse aos seus desesperados colaboradores que tirassem os uniformes ianques. A "Operação Greif" estava kaput, fracassara.
SKORZENY agora representava um papel velado, porém importante, na missão de tornar o avanço aliado na Alemanha lento e oneroso. Como Chefe de Sabotagem do Serviço de Informação dos nazistas, semeava agentes secretos em todos os lugares de onde os alemães estavam prestes a retirar-se. Em acantonamentos e quartéis abandonados, eles colocavam explosivos ocultos por engenhosa camuflagem. Alguns eram de matéria plástica e podiam ser afixados nos cantos dos soalhos ou dos tetos. Havia armadilhas para serem colocadas em pianos, mapas enrolados ou tábuas de privada. Outras, assemelhando-se a pequenas pedras, seixos e até mesmo estrume, eram espalhadas pelas rodovias para fazer explodir os caminhões. Uma das últimas coisas que Skorzeny fez foi desenhar e distribuir as cápsulas de veneno com as quais alguns figurões nazistas, inclusive Goering e Himmler, se suicidaram.
Quando Skorzeny se entregou às autoridades norte-americanas, disse que nunca pretendera, realmente, matar Eisenhower. Aquilo não passara de um plano que havia engendrado para entusiasmar os seus homens. Ele sabia que alguns seriam capturados, contariam a história e, assim, aumentariam a confusão. Com polidez, mas sem a menor hesitação, ele declarou: "Se eu o tivesse planejado, teria tentado; se tivesse tentado, teria conseguido."
Ante um tribunal de 9 oficiais, em Dachau, a promotoria retirou algumas acusações, inclusive a implicação no famoso massacre de prisioneiros americanos em Malmédy. O incansável lúdibriador jurou que muitos outros soldados além dos seus auxiliares, inclusive ingleses e russos, haviam usado uniformes inimigos, e que ele recomendara aos seus homens que usassem o disfarce para penetrar nas linhas norte-americanas, mas que despissem a farda antes de dar o primeiro tiro. No dia 8 de setembro de 1947, o tribunal, depois de somente duas horas e meia de sessão, pôs em liberdade Skorzeny e sete de seus ajudantes.
"Tive um julgamento leal," disse Skorzeny, "e não fui fisicamente maltratado, embora me tenham feito passar 22 meses na solitária. Minha única reclamação é que alguém libertou... o relógio que Mussolini me deu."
Como oficial da S.S., Skorzeny agora enfrentaria um tribunal alemão de desnazificação. Em sua prisão, na Alemanha, recebeu dos Estados Unidos cartas de admiradores, inclusive oferecimentos de auxílio, provavelmente em consequência dos artigos publicados pela imprensa a respeito de sua absolvição, o que provocou um sentimento de pena em alguns espíritos no outro lado do Atlântico.
Na manhã de 25 de julho de 1948, seu carcereiro, alemão, descobriu que ele tinha fugido.
"Esse homem tem muitos seguidores que estão em liberdade," disse, enraivecido, seu promotor, o coronel Alfred J. Rosenfeld. "Acredita-se que eles tenham organizado um movimento clandestino e estejam esperando que Skorzeny assuma a chefia. Ele é o homem mais perigoso da Europa."
O belo gigante de cicatriz no rosto, tão facilmente reconhecivel, ainda está à solta.




Seleções Reader's Digest - Maio de 1949

domingo, 23 de agosto de 2009

TORPEDO!


A história do Archerfish, o submarino que desmantelou o cerne da Marinha Japonêsa

Capitão-de-Fragata Edward L. Beach, da Marinha dos Estados Unidos
Condensado de "Submarine!"


O SUPERENCOURAÇADO japonês Shinano, juntamente com os navios Yamato e Musashi, de igual tipo, estava em construção em meados de 1942 e era o maior navio de guerra jamais construído. Maior que o Bismarck, o monstro alemão de 50 mil toneladas, e quase três vezes maior que o Oklahoma, que jaz de quilha para cima no lodo de Pearl Harbor. Couraças de 50 centímetros de espessura, máquinas de 200 mil H.P. e canhões que atiravam projetis de 457 milímetros de diâmetro. Depois da batalha de Midway, em que quatro navios-aeródromos japoneses foram destruídos, o Ministério da Marinha resolveu transformar o Shinano em navio-aeródromo. Parte da formidável couraça foi retirada; seus enormes canhões e torres nunca chegaram a ser instalados; e o peso correspondente foi utilizado num convés de voo, de dez centímetros de aço, quase 300 metros de comprimento e cerca de 40 metros de largura, capaz de transportar 150 aviões, podendo lançá-los e recolhê-los simultaneamente. Em novembro de 1944 realizou-se a cerimónia de incorporação. Um retrato do Imperador, numa moldura dourada e ornamentada, foi pomposamente entregue ao navio.
Então chegaram más notícias. Relatórios do Serviço de Informações indicavam que os ataques aéreos sobre a área de Tóquio passariam a ser cada vez mais intensos. Havia uma possibilidade de que o valoroso navio em construção fosse destruído enquanto ainda em preparo no arsenal.
Decidiu-se que o Shinano deveria seguir imediatamente para as águas mais seguras do Mar do Japão. Tratava-se de um viagem de algumas centenas de milhas apenas, mas cerca da metade passaria por águas acessíveis aos submarinos americanos. Era um risco que tinha de ser enfrentado. A viagem devia ser a tão alta velocidade que os submarinos não pudessem alcançá-lo. Havia necessidade de absoluto segredo.
A 28 de novembro, o Shinano suspendeu, acompanhado de uma escolta de quatro contratorpedeiros. Marinheiros e operários enchiam o convés.
No mesmo dia, o submarino norte-americano Archerfish estava fazendo patrulha imerso próximo à baía de Tóquio. Às^ 17.18 horas, ele veio à superfície. As 20.48 horas o Destino interveio.
—Contato radar!
Pelo tamanho da projeção do alvo e pela sua velocidade não há a menor dúvida de que o Archerfish tem pela frente algo realmente grande. Dentro de poucos minutos o Archerfish está andando na sua velocidade máxima normal, 18 nós, levantando um bigode de espuma na proa, atravessando o mar em perseguição cerrada.
O alvo navega a 20 nós, mas viaja em ziguezagues. Se o Archerfish puder determinar o seu rumo-base e navegar paralelo a ele, descontando os ziguezagues, talvez possa adiantar-se e alcançar uma posição de ataque, não obstante a diferença de velocidades.
Mas 18 nós não bastarão. Da torreta vem um chamado:
— Vamos dar tudo o que pudermos! Preciso de mais velocidade!
Abanando a cabeça, os suboficiais eletricistas manipulam cuidadosamente seus reostatos para aumentar um pouco a carga dos geradores. As hélices aumentam sua velocidade. O Archerfish está dando o máximo e o mostrador indica 19¹/² nós.
Uma hora depois do contato inicial, o alvo é avistado pela primeira vez. Um navio-aeródromo! O grande prémio, o prémio máximo! O Archerfish poderá afundar aquele monstro?
O Comandante Joe Enright percorre o submarino todo. Pede ao oficial de máquinas mais uma rotação das hélices. Manda o oficial de torpedos verificar se todas as ajustagens de última hora estão feitas. Rabisca uma radiomensagem:


DO ARCHERFISH AO COMANDO SUBMARINOS PACÍFICO E TODOS SUBMARINOS ÁGUAS JAPONESAS ESTOU SEGUINDO NAVIO-AERÓDROMO QUATRO CONTRATORPEDEIROS POSIÇÃO 3230 N 13745 E, RUMO-BASE 240, VELOCIDADE 20.


De Pearl Harbor vem a resposta do Almirante-em-Comando:


FOGO NELE JOE ESTAMOS TORCENDO POR VOCÊ.


O submarino persegue ansiosamente a sua presa.
Às 23.00 horas o grupo do alvo vira em ângulo na direção do Archerfish, mas não se aproxima o suficiente para dar uma oportunidade de imergir e atacar. O Archerfish não desanima e continua a perseguição.
Às 03.00 horas o Shinano aproxima-se do seu fim. O rumo-base é alterado novamente e, com espanto de todos, o Archerfish encontra-se quase pela proa do alvo.
Ah-uuuh-ga! Ah-uuuh-gal O alarme para imersão parece mais penetrante do que de costume.
—Postos de combate em imersão!
—Fechada a escotilha, Comandante!
—Lemes horizontais oito graus aproado! Máquinas adiante um terço! Cinquenta e cinco pés!
Cada homem executa suas funções com perfeição e o Archerfish mergulha suavemente sob as ondas. O radar obtém uma última leitura antes de imergir a antena: 10.530 metros, distância diminuindo rapidamente.
—Içar o periscópio!
O tubo comprido e luzidio sobe em seu berço. O Comandante faz uma visada longa e cuidadosa através da luz precária de antes do amanhecer. Em todo o barco a guarnição está ansiosa:
—Teremos imergido na posição correta?
Em voz baixa o Comandante informa:
—Eu o estou vendo.
Suas palavras percorrem o navio. Os homens se entreolham com rígidos, e fugazes sorrisos de orgulho.
—Nós o temos no periscópio.
Ouve-se agora mais alto, a voz do Comandante:
—Distância—marcação! Arriar periscópio!
Tudo está correndo satisfatóriamente. Navegando a 20 nós, o alvo percorrerá a distância até ao Archerfish em nove minutos. A distância para a rota projetada é 500 metros. Perto demais! O Archerfish estará praticamente por baixo do alvo quando este passar.
—Todo o leme a bombordo!
Guinando mais na direção do alvo, o Archerfish manobra para uma posição favorável ao ataque.
—Quanto tempo falta?—indaga àsperamente o Comandante.
—Em dois minutos ele estará aqui!
—Içar o periscópio!
Rapidamente o Comandante faz girar o periscópio, varrendo a superfície. De repente pára.
—Arriar periscópio! Estamos por baixo da escolta!
O periscópio é arriado. Com um ronco como o de um trem expresso, as hélices de um velocíssimo çontra-torpedeiro passam por cima.
—Esta é uma observação para o tiro! Os torpedos estão prontos?
Inconscientemente, a voz do Comandante tinha-se tornado áspera e enérgica. Aquele era o momento pelo qual haviam trabalhado.
—Estamos prontos para atirar, Comandante.
—Içar periscópio! Parece perfeito! Marcação—atenção!
E então a palavra final, a ordem que era o fim em vista:
—Fogo!
Com intervalos de oito segundos, seis torpedos partiram céleres em direção ao alvo enorme. O Comandante observou pelo periscópio.
Quarenta e sete intermináveis segundos depois do tiro o Archerfish obteve o prémio de seus esforços.
Bam! E, oito segundos depois: Bam! Dois acertos bem vistos! Mas não havia tempo para ficar como espectador. Já se aproximava um contratorpedeiro a menos de 500 metros.
— Vamos mais fundo! Ao prepararem a descida, ouviram-se mais quatro acertos positivos.
Depois disso o relatório da patrulha do Archerfish registra apenas o seguinte: "Começamos a receber um total de 14 bombas de profundidade."
E o Shinano? Projetado para resistir a 20 ou mais torpedos, não naufragou imediatamente. Se tivesse sido corretamente manobrado por sua inexperiente guarnição, e se tivesse sido bem construído, talvez alcançasse um porto.
Mas a água dos compartimentos danificados passava para os não atingidos através de portas-estanques que não tinham sido testadas. O pessoal de máquinas quis dar partida às
bombas de esgoto—e verificou que não tinham sido montadas ainda.
Em desespero, organizaram-se filas de baldes, mas as seis enormes perfurações no costado desafiavam todos os esforços.
E aí falhou a disciplina. Os homens começaram a abandonar as filas de baldes isoladamente ou em grupos. Em atitude fatalista, a maioria da guarnição novata concentrou-se no convés de voo, na esperança de ser salva pelos contratorpedeiros que navegavam em torno do navio-aeródromo ferido.
Quatro horas depois de mortalmente atingido, o Shinano era um casco perdido e cada vez mais adernado. Só havia uma coisa a fazer: o Imperador, na sua moldura dourada, foi retirado do passadiço e transferido para um contratorpedeiro parado ao lado. Depois teve início a faina de abandono do navio.
Pouco antes das 11.00 horas do dia 29 de novembro o Shinano virou, desaparecendo o seu convés de voo e expondo o bojudo e brilhante fundo, com suas quatro hélices de bronze na popa. Durante vários minutos ele se manteve assim, trepidando e gemendo. Depois, repentinamente, a proa elevou-se parcialmente fora da água, com o escovém da amarra parecendo um olho gigantesco, como se o Shinano quisesse lançar um último olhar ao mundo que estava deixando. E rapidamente desapareceu debaixo d'água.
O Shinano havia navegado em mar aberto menos de vinte horas.


Seleções Reader's Digest - Abril de 1953

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Eu Comandei o Ataque a Pearl Harbor






Capitão-de-Mar-e-Guerra Mítsuo Fuchida,
da antiga Armada Imperial Japonesa Redação de Roger Pineau


"Desejamos que o senhor comande a nossa força aérea, na hipótese de atacarmos Pearl Harbor."
Fiquei quase sem fôlego. Era em fins de setembro de 1941 e, se a situação internacional continuasse a agravar-se, o plano de ataque teria de ser executado em dezembro. Não havia tempo a perder no treinamento para essa importantíssima missão.
Em meados de novembro, após o mais rigoroso treinamento, foram levados os aviões para bordo dos respectivos porta-aviões que, a seguir, aproaram para as ilhas Curilas, viajando isolados e seguindo rotas diferentes para não despertar atenção. Depois, às 6 horas da manhã, uma manhã escura e nublada, em 26 de novembro, nossa fôrça-tarefa de 28 navios, incluindo seis navios-aeródromos, deixou as Curilas.
O Vice-Almirante Nagumo comandava a Força de Ataque a Pearl Harbor. As instruções por ele recebidas diziam: "No caso de as negociações com os Estados Unidos chegarem a conclusão satisfatória, a fôrca-tarefa regressará imediatamente à pátria.'' Desconhecendo o fato, entretanto, as tripulações, lançando o que talvez fosse o seu último olhar ao Japão, gritavam: "Banzai!" Podia-se perceber seu ardente entusiasmo e espírito combativo. Malgrado isso, eu não podia deixar de alimentar dúvidas quanto à confiança com que o Japão se lançava à guerra.
Nossa rota devia passar entre as ilhas Aleútas e a ilha de Mídway, de maneira a ficar fora do alcance das patrulhas aéreas americanas, que, em alguns casos, segundo se supunha, abrangiam uma extensão de 1.000 quilômetros. Enviamos à frente três submarinos para informar da presença de quaisquer navios mercantes, a fim de podermos alterar a rota e evitá-los. Mantínhamos um alerta permanente contra submarinos americanos.
Nossos rádios permaneciam em absoluto silêncio, mas ouvíamos as transmissões de Tóquio e Honolulu procurando alguma palavra sobre o início da guerra. Em Tóquio, uma conferência de coordenação do governo e do Alto Comando esteve em sessão, diariamente, de 27 a 30 de novembro; para discutir-a proposta feita pelos Estados Unidos no dia 26. Chegou-se à conclusão de que a proposta era um ultimato destinado a subjugar o Japão e a tornar a guerra inevitável, mas que se deveria prosseguir nos esforços pela paz até ao último momento.
A decisão a favor da guerra foi tomada na Conferência Imperial realizada a 1.° de dezembro. No dia seguinte, o Estado-Maior Geral deu a ordem: "O dia do ataque será 8 de dezembro" (7 de dezembro no Havaí e nos Estados Unidos). A sorte estava lançada: rumamos diretamente para Pearl Harbor.
Por que foi escolhido aquele domingo para o ataque? Porque estávamos informados de que a Esquadra Americana regressava a Pearl Harbor nos fins-de-semana, após um período de instrução no mar. E também porque o ataque deveria ser coordenado com nossas operações em Malaca, onde estavam previstos ataques e desembarques aéreos para a madrugada daquele dia.
De Tóquio foram-nos retransmitidos relatórios do Serviço de Informações sobre atividades da Esquadra Norte-Americana:
7 de dezembro (6 de dezembro, hora do Havaí): "Não há balões nem redes antitorpedo em torno dos encouracados ancorados em Pearl Harbor. Todos os encouraçados estão na baía. Não há indicações, na atividade do rádio inimigo, de que estejam sendo feitos voos de patrulha oceânica na região do Havaí. O Lexington deixou o porto ontem. Supõe-se que o Enterprise também esteja operando no mar."
Nessa ocasião é que recebemos a mensagem do Almirante Yamamoto: "O apogeu ou declínio do Império depende desta batalha; todos devem dar o máximo de seu esforço no cumprimento do dever."
Estávamos exatamente a 368 quilômetros ao norte de Oahu, onde está situada Pearl Harbor, pouco antes do alvorecer de 7 de dezembro (hora do Havaí), quando os navios-aeródromos manobraram na direção do vento norte. A bandeira de combate tremulava no topo de cada mastro. O mar estava muito agitado, o que nos fez hesitar quanto à decolagem no escuro. Achei que era viável. Os conveses de voo vibraram com o ronco dos motores dos aviões acabando de aquecer.
Uma lâmpada verde foi agitada em círculos. "Decolar!" O rugido do motor do primeiro caça foi crescendo até que ele se elevou no ar, são e salvo. Havia grandes gritos de aclamação toda vez que um avião decolava.
Dentro de 15 minutos, 183 caças, bombardeiros e torpedeiros tinham decolado dos seus navios-aeródromos e estavam entrando em forma no céu ainda escuro, guiados apenas pelas luzes de sinalização dos aviões-guias. Após circularmos por cima da esquadra, tomamos a rota que conduzia exatamente ao sul de Pearl Harbor. Eram 6 e 15.
Sob meu comando imediato havia 49 aviões de bombardeio horizontal. À minha direita e um pouco abaixo estavam 40 aviões torpedeiros; à minha esquerda, cerca de 200 metros acima, 51 bombardeiros de mergulho; protegendo a formação havia 43 caças.
As 7 horas calculei que deveríamos chegar a Oahu em menos de uma hora. Mas, voando por cima de espessas nuvens, não víamos a superfície do mar e, portanto, não podíamos controlar nossa deriva. Liguei o radiogoniômetro para a estação de Honolulu e não tardei a ouvir música. Girando a antena, encontrei a direcão exata de onde vinha a transmissão, e corrigi a nossa rota. Tivéramos uma deriva de cinco graus.
Ouvi então um boletim meteorológico de Honolulu: "Nublado em parte, principalmente sobre as montanhas. Boa visibilidade. Vento norte, dez nós."
Que sorte a nossa! Não se poderia ter imaginado situação mais favorável. Devia haver brechas nas nuvens, sobre a ilha.
Cerca de 7 e 30 as nuvens se abriram de repente e apareceu uma longa linha branca de litoral. Estávamos sobre a extremidade norte de Oahu. Era a hora de desdobrarmos a nossa formação.
Chegou um relatório de um dos dois aviões de reconhecimento que tinham ido à frente, dando a localização de dez encouraçados, um cruzador pesado e dez cruzadores leves. O céu ia ficando mais limpo à proporção que avançávamos para o alvo, e comecei a estudar nossos objetivos com auxílio do binóculo. Os navios estavam lá. "Dê ordem de ataque a todos os aviões", ordenei ao meu radioperador. Eram 7 e 49.
As primeiras bombas caíram no aeródromo de Hickam, onde havia fileiras de bombardeiros pesados. Os pontos atingidos a seguir foram a ilha Ford e o aeródromo de Wheeler. Em pouco tempo imensos rolos de fumaça subiam dessas bases.
Meu grupo de bombardeio horizontal manteve-se a leste de Oahu, para lá da extremidade sul da ilha. No ar só havia aviões japoneses. Os navios, na baía, pareciam ainda adormecidos. A estação de rádio de Honolulu continuava normalmente a sua transmissão. Conseguíramos a surpresa!
Sabendo que o Estado-Maior Geral devia estar ansioso, ordenei que fosse enviada à Esquadra a seguinte mensagem: "Conseguimos realizar ataque de surpresa. Peço retransmitir esta informação para Tóquio."
Começaram a aparecer esguichos de água ao longo dos encouracados. Eram os nossos aviões torpedeiros em ação. Era tempo de desencadearmos nossos bombardeios horizontais. Ordenei ao meu piloto que inclinasse o avião abruptamente. Era o sinal de ataque para o nosso grupo. Os meus dez esquadrões formaram em coluna por um, com intervalos de 200 metros - uma bela formação.
Enquanto meu grupo fazia a corrida para o bombardeio, a artilharia antiaérea americana, tanto de bordo dos navios como das baterias terrestres, entrou subitamente em ação. Aqui e ali viam-se explosões de cor cinza-escura, até que o céu se encheu de abalos de tiros quase certeiros que faziam o nosso avião estremecer. Fiquei surpreendido com a rapidez do contra-ataque, que veio menos de cinco minutos depois de lançada a primeira bomba. A reação japonesa não teria sido tão pronta — o caráter japonês é apropriado à ofensiva, mas não se ajusta facilmente à defensiva.
Meu esquadrão dirigia-se para o Nevada, que estava fundeado na extremidade norte do Cais dos Encouraçados, na parte leste da ilha Ford. Estava quase no momento de soltar as bombas quando penetramos numa formação de nuvens. Nosso bombardeador-guia abanou as mãos para trás e para a frente para indicar que teríamos de passar "em branco", e demos uma volta sobre Honolulu para aguardar outra oportunidade. Nesse ínterim, outros esquadrões fizeram suas corridas, tendo alguns realizado três tentativas antes de lograrem êxito.
Repentinamente, colossal explosão verificou-se no Cais dos Encouracados. Uma imensa coluna de fumaça negro-avermelhada se elevou a uns 300 metros, e uma violenta onda de choque atingiu o nosso avião. Devia ter explodido um paiol de pólvora. O ataque estava no auge; a fumaça dos incêndios e explosões enchia quase todo o céu sobre Pearl Harbor.
Observando com o binóculo o Caís dos Encouracados, vi que a grande explosão havia sido no Arizona. Este continuava ardendo violentamente, e como a fumaça cobria o Nevada, alvo do meu grupo, procurei algum outro navio para atacar. O Tennessee já estava pegando fogo, mas junto dele encontrava-se o Maryland. Dei ordem para mudar, tomando o Maryland como alvo, e voamos em díreção ao fogo antiaéreo.
Quando o bombardeador do nosso avião-guia largou sua bomba, os pilotos, observadores e radioperadores dos demais aviões gritaram "Lançar!" e lá se foram as nossas bombas. Imediatamente me deitei de bruços no chão para observar através duma fresta. Quatro bombas, formando um desenho perfeitamente simétrico, caíam a prumo como demônios da destruição. Foram diminuindo de tamanho até se transformarem em quatro pontinhos, e finalmente desapareceram dando lugar a quatro minúsculos clarões no navio e perto dele.
De grande altitude, os tiros perdidos são mais perceptíveis que os impactos diretos, pois produzem ondas circulares na água, fáceis de ver. Percebendo duas dessas ondas e mais dois pequenos clarões, bradei: "Dois certeiros!" Tive a convicção de que havíamos produzido danos consideráveis. Dei ordem aos bombardeiros que haviam completado suas missões para que regressassem aos porta-aviões. O meu, porém, permaneceu sobre Pearl Harbor para observar e dirigir as operações ainda em curso.
Pearl Harbor e arredores estavam convertidos num caos. O Utah havia emborcado. O West Virginia e o Oklahoma, com os cascos quase arrancados pelos torpedos, adernavam perigosamente em meio a uma inundação de óleo grosso. O Arizona estava muito adernado e ardia furiosamente. Os encouraçados Maryland e Tennessee ardiam também. O Pennsylvania, que estava no dique seco,ficara intato— evidentemente o único encouraçado que não fora atacado.
Durante o ataque, muitos dos nossos notaram os valentes esforços dos pilotos americanos para decolar com seus aviões. Apesar da grande inferioridade numérica, voaram diretamente sobre nossos aparelhos para travar combate. Os resultados foram ínfimos, mas sua coragem impôs admiração e respeito.
Os aviões do nosso primeiro ataque levaram uma hora para concluir sua missão. Quando iniciaram o regresso aos navios-aeródromos, após terem perdido três caças, um bombardeiro de mergulho e cinco aviões torpedeiros, entrou em cena a nossa segunda vaga de 171 aviões.
O céu estava agora tão coberto de nuvens e de fumaça que era difícil localizar os alvos. Para dificultar ainda mais a missão, o fogo da artilharia antiaérea, naval e terrestre tornara-se intensíssimo.
O segundo ataque conseguiu excelente dispersão, atingindo os encouraçados menos danificados, bem como cruzadores e contratorpedeiros não atingidos anteriormente. Este ataque durou também cerca de uma hora, mas, devido à intensificação do fogo da defesa, houve novas baixas: seis caças e 14 bombardeiros de mergulho.
Depois que a segunda onda iniciou a viagem de retorno aos navios-aeródromos, dei novamente uma volta sobre Pearl Harbor para observar e fotografar os resultados. Contei quatro encouraçados positivamente afundados, três seriamente avariados. Outro encouraçado parecia consideravelmente desmantelado, e haviam sido destruídos numerosos navios de outros tipos. A base de hidraviões da ilha Ford estava presa das chamas, bem como os aeródromos, especialmente o de Wheeler.
Devido à densa cortina de fumaça não era possível determinar os estragos sofridos pelos aeródromos. Era evidente, todavia, que boa percentagem do poderio aéreo da ilha fora destruída: nas três horas em que meu avião permaneceu naquela região não encontramos um único avião inimigo. No entanto, vários hangares estavam ilesos, e era possível que alguns deles contivessem aviões utilizáveis.
Meu avjão foi talvez o último a voltar para a esquadra, onde os outros aparelhos, reabastecidos e rearmados, estavam se alinhando, preparando-se para outro ataque. Fui chamado sem demora à ponte de comando. O Estado-Maior do Almirante Nagumo, enquanto aguardava meu relatório, estivera entretido em uma discussão intensa sobre a conveniência de lançar novo ataque.
—Quatro encouraçados positivamente afundados — informei. — Alcançamos elevado grau de destruição nas bases aéreas e nos aeródromos. Há, contudo, muitos alvos ainda por atingir. Insisti por novo ataque. O Almirante Nagumo, porém— numa decisão que desde então tem sido alvo de muita crítica por parte de peritos navais—preferiu voltar à base. Imediatamente foram alçadas as bandeírolas de sinais e nossos navios aproaram para o norte a grande velocidade.




Texto extraído da Revista Seleções Reader's Digest de Abril de 1954

quarta-feira, 15 de abril de 2009

DINHEIRO FALSO COMO ARMA DE GUERRA





DINHEIRO FALSO COMO ARMA DE GUERRA
 
Pelo Major George J. McNally
e Frederic Sondern, Jr.

ANTES de entrar para o Exército Norte-Americano em 1942, George McNally foi agente do Serviço Secreto dos Estados Unidos, especializando-se na perseguição aos falsários. Em 1945 o Exército o escolheu para proteger as tropas norte-americanas na Europa contra a falsificação de dinheiro que sempre se verifica em grande escala durante as invasões e ocupações militares.
Frederic Sondern, Jr., redator itinerante do Reader's Digest, tem escrito muitos importantes artigos sobre acontecimentos da Europa Central.

Um estratagema fantástico de Himmler para desorganizar a economia da Inglaterra na última guerra.

Poucos dias depois da rendição dos exércitos de Adolf Hítler, um oficial do Serviço de Contra-Espionagem dos Estados Unidos telefonou alvoroçado para o meu gabinete no Supremo Q.G. das Forças Expedicionárias Norte-Americanas na Europa, em Francforte. Queria comunicar-me que um capitão alemão havia entregue um caminhão carregado com milhões de cédulas de dinheiro inglês. Acrescentou que grandes quantidades de notas estavam boiando no rio Enns e que civis e soldados aliados as estavam recolhendo.
Surpreso e intrigado, corri ao local onde o capitão alemão e o seu veículo estavam detidos. Ali, dentro de 23 caixotes do tamanho de caixões de defunto, estavam maços e maços de notas do Banco da Inglaterra. Uma rápida avaliação da prêsa — com o auxílio dos manifestos escritos em caligrafia caprichada e pregados na parte interna de cada tampa—indicou que a quantia importava em nada mais nada menos que 21 miIhões de libras esterlinas!
Foi-me impossível determinar, mesmo com" uma forte lente de aumento, se as, notas eram verdadeiras ou não. Comuniquei-me com meus colegas ingleses em Francforte e, pouco depois, recebi um telefonema diretamente do Banco da Inglaterra. Quando fiz uma descrição do achado, ouvi uma longa exclamação de espanto do outro lado do fio. Pouco depois, chegava de Londres um representante do Banco, um cavalheiro alto, anguloso e reservado, de nome Reeves.
Levamos Reeves à sala muito bem guardada onde fora recolhido o tesouro, e ele começou a olhar de caixote em caixote, folheando as notas. Afinal, deteve-se e ficou de olhar parado no espaço. Em seguida, durante vários segundos, praguejou lenta e metodicamente na sua voz de inglês bem educado, mas com grande veemência.
—Desculpem, disse ele por fim. Mas a gente que fez esse dinheiro já nos deu muito prejuízo.
Daquele momento em diante Reeves, três detectives da Scotland Yard e eu colaboramos na reconsti-tuição da fantástica história da Operação Bernhard, a maior mistificação que um governo já perpetrou contra outro.
Para começar, disseram-me que no ano de 1943 uma quantidade alarmante de dinheiro inglês falsificado principiou a chegar a Londres, procedente de Zurique, Lisboa, Estocolmo e outros centros neutros. As notas apareciam no começo em lotes de 100 mil libras ou mais e a qualidade
da falsificação melhorava sempre. 
Os técnicos do Banco da Inglaterra chegaram, sem demora, à conclusão de que as notas estavam sendo fabricadas por homens de grande competência e distribuídas por uma quadrilha extraordinariamente bem organizada.
Um dia, um espião alemão foi preso em Edimburgo. Fora levado de hidroavião até à costa da Escócia e alcançara a praia num bote de borracha. A mala que levava estava cheia de notas—o dinheiro falso mais perfeito que já se vira no Banco da Inglaterra.
O Banco percebeu, então, que o falsário com.quem tinha de lidar era o próprio governo alemão e que aquilo bem podia ameaçar o crédito da Inglaterra. Durante dezenas de anos os bancos do mundo inteiro vinham usando notas do Banco da Inglaterra quase como se fossem ouro. Europeus e asiáticos receosos costumavam entesourá-las como reserva, caso houvesse desvalorização do seu próprio dinheiro. Havendo, naquela ocasião, centenas de milhares de libras em dinheiro falso em , circulação fora da Inglaterra, se houvesse dúvidas quanto à validade das notas nos países neutros e aliados, especialmente no meio de uma guerra, o resultado poderia ser extremamente perigoso não só para a Inglaterra como também para a causa aliada. Por fim, o Banco teve de ceder ante o inevitável.
O mundo financeiro internacional sofreu um choque quando o Banco anunciou que ia recolher todas as suas notas de todos os valores e substituí-las por notas de cinco libras de nova estampa. A partir de uma data determinada, todas as notas antigas perderiam o valor.
O Ministro da Fazenda da Inglaterra explicou ao Parlamento atônito, com a devida reserva, que um dos motivos determinantes da providência era a falsificação em grande escala. Mais não disse, e a imprensa inglesa foi dissuadida de levar adiante as suas indagações.
A verdade era que, em três anos, os nazistas tinham imprimido quantidades incalculáveis de notas inglesas falsas que estavam desmoronando fortunas; abalando bancos e indústrias ecustando ao Tesouro Inglês milhões de esterlinos.
Baseados nessa informação, iniciamos as investigações para descobrir os homens e as máquinas responsáveis por essa obra colossal de falsificação.
Por acaso, não foi difícil encontrar as máquinas. O capitão alemão que nos entregara os caixotes de notas disse havê-las recebido de um oficial das Tropas de Assalto (SS), cujo caminhão enguiçara perto da aldeia de Redl Zipf, com ordem para jogar tudo dentro de um lago próximo. O capitão nada mais sabia além disso. Fomos a Redl Zipf e descobrimos uma das redes subterrâneas de depósitos e oficinas que ramificam o reduto alpino onde os nazistas pretenderam opor a sua última resistência. Ali, na Galeria 16—um túnel de 60 metros de comprimento partindo de uma grande escavação feita no flanco de uma montanha— encontramos prelos para imprimir notas e outras máquinas. Mas não havia clichés, nem papel nem escrituração. "O que temos a fazer agora, meu amigo", disse Reeves, "é procurar as pessoas que trabalhavam aqui!'
As indagações que fizemos em Redl Zipf revelaram que todos os homens que haviam trabalhado na fábrica subterrânea tinham sido levados para o campo de extermínio de Ebensee, a 65 quilometros dali, poucos dias antes da capitulação dos alemães. Fomos, sem demora, a Ebensee—mas já não encontramos nenhum dos falsários. O comandante do campo, sabendo que já havia tropas americanas na região, fingira acatar a ordem de gasear todos os 140 homens, mas não tomara nenhuma providência nesse sentido. Quando o campo foi libertado, os falsários saíram simplesmente, cada qual para o seu lado.
Felizmente, os livros do campo tinham sido mantidos em dia com a típica precisão germânica, até nos últimos dias alucinados do Reich. Os nomes e os lugares de nascimento de todos os membros do estranho grupo estavam ali registrados. Iniciou-se, então, uma busca que durou meses e nos levou aos quatro cantos do ex-império nazista.
Conseguimos reunir, um por um, mais de 40 dos mais importantes falsários. Pouco a pouco, fomos cotejando e articulando os seus depoimentos, que às vezes chegavam a ser incríveis. E, afinal, fizemos a mais importante das nossas descobertas. De vários desses depoimentos ficamos sabendo que um tcheco de nome Oskar Skala, prisioneiro político dos nazistas, fora o guarda-livros-chefe da operação. Graças ao auxílio da polícia tcheco-eslovaca, fomos encontrá-lo pacificamente vendendo cerveja numa cidadezínha perto de Pilsen. Skala nos ajudou bastante. Sendo homem metódico, tinha anotado, diariamente, numa caderneta pequena, todo o trabalho feito pelos falsificadores. Os capítulos finais da fantástica história da Operação Bernhard não tardaram a aparecer.
No começo da guerra, o Führer das SS, Heinrich Himmler, criara em seu quartel-general a Seção 6-F-4, organização destinada a abalar a economia inglesa por meio da falsificação, em grande escala, de dinheiro inglês. O plano foi realmente encaminhado quando o Major Bernhard Krüger foi nomeado diretor executivo, em 1942.
Krüger era um nazista jovem e imaginoso que sentiu um fascinante desafio nos problemas que estavam retardando a 6-F-4. Uma das dificuldades tinha sido o recrutamento do pessoal de elevada competência e especialização necessárias a uma grande oficina de falsificação. Os técnicos do Reichsbank e da Imprensa Oficial do Reich, na sua maioria velhos e conservadores funcionários civis prussianos, revoltaram-se ante a ideia de imprimir dinheiro de outra nação, mesmo em tempo de guerra. Krüger achou uma solução. Muitos dos mais competentes técnicos alemães em artes gráficas estavam em campos de concentração em virtude da sua origem racial. Podia-se pôr esses homens a trabalhar e, ao mesmo tempo, mantê-los calados.
Bernhard Krüger reuniu esses técnicos, prometeu-lhes tratamento preferencial pelo resto da vida e mandou transportá-los para o campo de concentração de Sachsenhausen, em Oranienburg, perto de Berlim. Ali, num conjunto de edifícios isolado, conhecido por Bloco 19, cercado de arame farpado eletrificado e guardado por sentinelas escolhidas da famosa Brigada da Morte, sob o juramento de manterem absoluto segredo, a Operação Bernhard entrou seriamente em fase de execução.
Instalaram-se oficinas com máquinas que eram a última palavra na impressão de notas. Os clichés foram então gravados com minucioso cuidado. Uma firma alemã fabricante de impressoras interrompeu a produção de guerra para fornecer a necessária maquinaria de precisão. Depois de muitas experiências, uma famosa fábrica de papel conseguiu reproduzir o fino e leve papel do Banco da Inglaterra, com as suas complicadas linhas-d'água.
A título de experiência, a Seção 6-F-4 enviou partidas do produto de Bernhard aos representantes da Gestapo nas embaixadas e consulados alemães na Turquia, na Espanha, na Suíça e na Suécia, com instruções para tentar passá-las nos bancos locais. Na maioria, as notas foram aceitas sem despertar dúvidas. Himmler exultou.
Depois, à medida que iam saindo das máquinas, as notas eram meticulosamente examinadas e classificadas. As de primeira classe, as melhores, eram distribuídas pela 6-F-4 para compras nos países neutros e com o dinheiro para despesas dos mais importantes espiões e sabotadores de Himmler no estrangeiro. As notas de segunda classe, que apresentavam ligeiros defeitos, mas ainda eram falsificações excelentes, eram distribuídas às unidades da Gestapo nos países ocupados para comprar informações e subvencionar colaboracionistas que gostavam de ter notas do Banco da Inglaterra à mão para alguma emergência.
As notas de terceira classe, também contrafações extremamente enganadoras, eram guardadas para a execução de um plano fantástico de Himmler. Essas notas seriam lançadas de avião sobre as Ilhas Britânicas! A esperança de Himmler era que o povo de toda a ilha as apanhasse c passasse adiante, colocando assim o governo e os bancos diante do difícil problema de separar o bom dinheiro do falso sem causar abalo econômico. Felizmente, quando havia notas em quantidade suficiente, a Luftwaffe já tinha sido expulsa do céu da Inglaterra e o plano foi abandonado.
Uma das vítimas notórias do dinheiro de primeira classe de Krüger foi o agora famoso "Cícero", o espião profissional albanês Eliaza Bazna, que foi mordomo do embaixador inglês em Angora durante a guerra e que se tornou, segundo ele pensava, o espião mais bem pago da história, por ter recebido 300 mil libras do Serviço Secreto Alemão em troca de segredos surrupiados ao cofre do embaixador. Outra vítima, essa mais típica, foi um homem de negócios da Suíça que aceitou, com absoluta boa-fé, notas inglesas no valor de cinco milhões de cruzeiros de um banco suíço as quais, depois de passarem por vários países neutros, chegaram por fim à sede do Banco da Inglaterra em Threadneedle Street. Ali, o produto do Major Krüger foi afinal descoberto por um tesoureiro perspicaz. Em alguns casos, porém, notas de primeira classe de Sachsenhausen foram enviadas da Alemanha a um país neutro, daí à Inglaterra, de novo soltaram a outro país neutro e finalmente à Alemanha mais uma vez, sem despertarem suspeitas em nenhuma das etapas.
Entretanto, ainda no período de maior êxito da Operação Bernhard, o Major Krüger andava apreensivo.A sua fábrica estava produzindo 400 mil notas por mês e em breve seria atingido o total que Himmler estimulara. Diante disso, o Major conspirou com os seus capatazes para retardarem o rendimento das máquinas e condenar como defeituosas grandes quantidades de notas de primeira classe. "Se não andarmos devagar", disse ele ao seu guarda-livros e principal assistente, "serei mandado para a linha de frente e vocês todos serão fuzilados. Seria uma grande pena." Para o Banco da Inglaterra foi uma felicidade ele pensar assim. Várias centenas de milhares de notas de primeira classe, que poderiam ter entrado em circulação, foram secretamente encaixotadas e postas de lado por ordem de Krüger.
Para manter a Operação Bernhard funcionando a pleno regime, Krüger empreendeu outro projeto que andava em suas cogitações havia algum tempo — a falsificação de dólares americanos. Isso, porém, foi mais difícil. O papel em que é impresso o dinheiro norte-americano nunca pôde ser imitado com êxito. Depois de exaustivas pesquisas, as melhores fábricas de papel da Alemanha só conseguiram uma imitação grosseira. Além disso, até os mais competentes auxiliares de Krüger se convenceram de que não poderiam produzir os complicadíssimos desenhos e as tintas coloridas necessárias.
Em algum ponto da Alemanha ou de um dos países ocupados, pensou Krüger, devia haver pelo menos um contrafator profissional com experiência de notas americanas capaz de resolver o impasse. A Gestapo e outros serviços secretos de Himmler entraram em ação. Numa prisão da Alemanha foram encontrar um tal Solly Smolianoff, cigano de nascimento e refinado falsário. Solly nunca estivera nos Estados Unidos, mas se especializara em fabricar notas "americanas" tão boas que mais de uma vez haviam chamado a atenção do Serviço Secreto dos Estados Unidos. Várias nações da Europa o haviam condenado e prendido pela fabricação desse dinheiro.
Solly achou o Bloco 19 um paraíso.
- Imaginem, dizia ele aos colegas, uma fábrica de dinheiro falso guardada pela polícia!
Em fins de 1944, Solly já havia conseguído uma nota de 50 dólares e outra de 100 que os técnicos da Imprensa Oficial do Reich e da 6-F-4 consideraram altamente satisfatórias. A Operação Bernhard preparou-se para a produção dessas notas.
Mas naquela época, a maré da guerra começou a voltar-se contra o Reich. Berlim era bombardeada dia a dia com mais violência e Sachsenhausen estava dentro da área visada. Himmler quis encerrar a Operação Bernhard, mas Krüger convenceu-o a deixá-lo transferir a oficina e o pessoal para uma das novas fábricas sUbterrâneas na zona do derradeiro reduto nos Alpes Austríacos. O Maior ponderou que, na hipótese de um Colapso, a Seção 6-F-4 poderia ser muito útil para os bons nazistas, pois poderia abastecê-los de dinheiro estrangeiro e de documentos de toda espécie, habilmente falsificados.
A mudança de Sachsenhausen levou meses. Só em abril de 1945 foi que a Operação Bernhard pôde instalar as suas máquinas na Galeria 16, atrás de Redl Zipf. Por esse tempo, as tropas americanas já se aproximavam do reduto. Solly Smolianoff nunca chegaria a utilizar os clichés que havia preparado com tanto carinho.
Uma tarde o Major Krüger, num veloz Alfa Romeo conversível e em companhia de uma loura espetacular, entrou roncando no campo de concentração que ficava à entrada da caverna de Redl Zipf. Levava ordens do próprio Himmler e as transmitiu precipitadamente. Todo vestígio da Operação Bernhard devia, ser apagado. Todos os registros deviam ser destruídos, as notas falsas e todo o estoque de papel ainda por imprimir seriam queimados, os clichés e as tintas jogados no ponto mais profundo do Lago Toplitz, que ficava perto. Os 140 membros da Operação Bernhard seriam levados para o campo de concentração de Ebensee e ali mortos.
O Major, calmo e polido como sempre, desculpou-se por não poder dirigir pessoalmente o serviço, alegando ter coisas mais urgentes para fazer em outro lugar. O Alfa Romeo estava carregado de notas legítimas do Banco da Suíça, adquiridas, como soubemos mais tarde por intermédio dos seus subordinados, em operações de câmbio negro nas capitais ocupadas. O porta-luvas do carro estava cheio de passaportes muito bem falsificados. O carro partiu veloz na direção da Suíça. Depois disso, nunca mais se ouviu falar no falsáriomor Krüger, apesar dos esforços combinados de meia dúzia de organizações policiais.
Durante os três dias que se seguiram à partida do Major, os oficiais das SS e os prisioneiros da Operação Bernhard encheram um grande forno com papéis e notas falsas de qualidade inferior. Um pelotão foi encarregado de jogar os clichés no fundo do Lago Toplitz. Mas ninguém teve ânimo de destruir as notas falsas me lhores, aquelas que Krúger tinha posto de parte a fim de evitar a aparência de superprodução. "Eram tão bonitas!" disse depois um dos falsários. Os caixões em forma de ataúde, cheios dessas notas, foram levados em caminhões por motoristas que receberam ordem de enterrá-los na vizinhança em lugares adequados, onde pudessem ser encontrados no futuro.
Foi um desses caminhões que o capitão alemão nos entregou. Alguns desapareceram, outros foram atirados no rio Enns por assustados membros das SS, cuja única preocupação era meterem-se em trajes civis e desaparecerem. No turbulento rio alpino, engrossado pélas chuvas da primavera, esses caixões de notas de primeira classe arrebentaram-se nas pedras e o povo dos arredores começou alegremente a recolher as cédulas.
Terminada a nossa investigação, fizemos um cálculo da produção total da Operação Bernhard. O resultado foi estarrecedor. De acordo com a caderneta de Oskar Skala e os depoimentos de outros elementos do grupo Krüger, a oficina do Major fabricou quase nove milhões de notas do Banco da Inglaterra, com um valor nominal de cerca de 140 milhões de libras esterlinas, equivalentes naquela época a quase 12 bilhões de cruzeiros! Cédulas no valor de 120 milhões de cruzeiros foram espalhadas pela Turquia e pelo Oriente Médio. A 6-F-4 distribuiu 240 milhões na França e nos Países Baixos. Contas alemãs no valor de 600 milhões de cruzeiros foram pagas em Portugal, na Espanha, na Suíça e nos países escandinavos. Cerca de cinco bilhões que escaparam do fogo em Redl Zipf foram ou pescados no rio Enns por austríacos, russos, americanos e ingleses ou escondidos por elementos das SS para futura utilização.
Durante muito tempo as cédulas retiradas do rio e não entregues às autoridades de ocupação foram aparecendo nos hipódromos da Inglaterra, nos centros de câmbio negro da Europa e até nas casas de câmbio de Nova York. Foi por isso que o Banco da Inglaterra teve de fazer o que fez. Estando o prestígio do Banco da Inglaterra de novo assegurado, a história da Operação Bernhard pode ser contada sem perigo.
Novas cédulas de cinco libras, com um finíssimo fio metálico embutido no papel mediante um processo secreto, e tanto quanto possível à prova de falsificação, substituíram as cédulas antigas. Graças a um esforço heróico, o Banco da Inglaterra salvou o crédito britânico e anulou uma tentativa desesperada de sabotar a economia aliada.
Mas para os ingleses e para os americanos a Operação Bernhard foi uma ameaça que quase se concretizou e que se pode repetir.




Texto retirado da revista Seleções do Reader's Digest de setembro de 1952


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